quarta-feira, 9 de novembro de 2011

All Together Now


Ficava ali colada à televisão. A mãe aos gritos, que se cuidasse, que ia dar cabo dos olhos, que fazia mal. Mas ela ficava ali. A gola alta vermelha com flocos de neve a picar-lhe o pescoço, o cabelo na frente do rosto rosado e ela ali sem se mover. Colada ao aparelhinho com a mesma curiosidade da primeira vez. O que ela gostava de ver anúncios de televisão. Uma e outra vez. A casa continuava como se nada fosse, mecânica, na sua rotina, ignorando a magia da publicidade. Porém, aquela música já tinha invadido a casa, rolado pelos rufos do telhado,  esgueirado pelas frestas das janelas, assenhoreado das ruas. Aquela música procurava os ouvidos dos objectos, dos animais, das pessoas. Para se instalar. Para que ela cantasse e saísse da frente da televisão.


HINO AO CHOCOLATE
(Ligeiramente adaptado do livro"Popina Iguarias Saudáveis Isidora Popovic" )
Tempo de preparação: 50 minutos
Serve: 8-10 pessoas;

  • 250 gr de chocolate preto;
  • 100 + 150 gr manteiga;
  • 2 ovos;
  • 120 gr açúcar mascavado claro;
  • 100 gr de farinha;
  • 1 + 1/2 colher de chá de fermento em pó;
  • 60 ml de leite;
  • 2 colhres de sopa de cacau em pó;
  • 200 gr de queijo creme;
  • 150 gr de açúcar em pó;
  • pepitas de chocolate de leite, negro e branco, para decorar;
Modo de preparação:
  1. Aqueça o forno a 170 Cº
  2. Derreta o chocolate e 100gr de manteiga. Deixe arrefecer;
  3. Bata os ovos com o açúcar mascavado até formar uma mistura leve e fofa. Adicione a farinha e o fermento em pó. Acrescente a mistura de chocolate derretido.
  4. Finalmente junte o leite e mexa devagar.
  5. Forre uma forma com fundo amovível com papel aderente. Deite o preparardo na mistura e leve ao forno durante 40 minutos a 170 Cº. Deixe o bolo arrefecer completamente antes de desenformar;
  6. Entretanto prepare a cobertura misturando o queijo creme com o açúcar em pó e o cacau. Bata até ficar cremoso e homogéneo.
  7. Espalhe a cobertura sobre o bolo e decore com pepitas de chocolate negro, de leite e branco.


sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Asas Delta


Clara nunca esteve sozinha. Nem nunca estará. Acredita sempre que é desta, que finalmente encontrou o amor. Como de costume, apressa-se a apresenta-lo à família, aos amigos, aos colegas. Como se o juízo deles lhe mudasse o rumo da decisão. Não muda. E ela bem sabe disso. Deixa a ponta solta. E vai ser sempre assim. Troca gestos infantis com ele à frente de toda a gente. Agarra-se a ele, troca mensagens em código, olhares de cumplicidade. Que bem que ela representa o papel. No fundo, Clara sabe que tão depressa ata o nó como o desata e procura novo amor. De pulo em pulo, como se tivesse asas nos pés.


PÃO DE QUEIJO COM SEMENTES DE PAPOILA
Tempo de preparação: 25 minutos + 20 cozedura;
Serve: 6-8 pessoas;

  • 2 chávenas de leite;
  • 200 gr de manteiga;
  • 1 colher de sopa de sal;
  • 200 gr de queijo ralado (uso tipo flamengo)
  • 500 gr de farinha de mandioca;
  • 3 ovos;
  • sementes de papoila para decorar;
Modo de preparação:
  1. Pré-aqueça o forno a 190 Cº e forre um tabuleiro com papel vegetal.
  2. Entretanto, leve o leite e a manteiga ao lume até a manteiga estar derretida. Reserve.
  3. Numa tigela grande, junte a farinha de mandioca ao sal. Acrescente o leite e manteiga derretidos e bata até obter ruma massa homogénea. Junte os ovos, um a um, sem deixar de bater. 
  4. Finalmente acrescente o queijo ralado.
  5. Forme bolinhas de massa e disponha no tabuleiro já preparado, deixando intervalos para os pães crescerem.
  6. Polvilhe sementes por cima dos pães e leve ao forno até estar dourado. Sirva quente.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Løb Stop Stå- Parar


Lembrava-se bem do mês e do dia. Com um pouco de esforço, podia até recordar a roupa que tinha vestida quando o marido lhe deu as chaves do carro novo. O gozo que lhe dava estacionar no parque da empresa, abrir a mala e passar as unhas impecáveis no símbolo cromado. Ti-ti. Aquele gesto de abrir e fechar portas no modo automático dava-lhe um sentimento de triunfo. Chegava ao escritório e pousava as chaves do carro em cima da mesa. Um troféu saloio que, juntamente com pares de sapatos e carteiras de luxo, fazia questão de exibir. Fiz por merecê-lo, dizia, imprimindo à voz um tom ligeiramente brejeiro, quase impudico, a provocar o pensamento alheio. Acariciava o volante cor de vinho com ternura e referia-se ao carro sempre na terceira pessoa, como se fosse um amante. Só ela sabia a dor que tinha sentido quando o anúncio foi publicado no jornal. Quando os papeis chegaram a casa. Quando aqueles homens bateram à porta, levaram as chaves e os documentos. Teresinha podia perdoar tudo ao marido. Menos que deixasse levarem-lhe o carro.


PÊRAS EM CALDA DE VINHO, MEL E ANIS ESTRELADO
Tempo de preparação: 30 minutos;
Serve: 6-8 pessoas;
  • 4 pêras grandes;
  • 3 estrelas de anis;
  • 2 colheres de sopa de pimenta preta;
  • 3 colheres de sopa de mel;
  • 3 colheres de sopa de açúcar;
  • 500 ml de vinho maduro tinto;
Modo de preparação:
  1. Descasque as pêras e corte-as ao meio.
  2. Misture o vinho, o mel, o açúcar, o anis estrelado e a pimenta e regue as pêras. Leve ao lume brando, cerca de 30 minutos ou até as pêras estarem cozidas. Deixe arrefecer.
  3. Sirva com gelado de nata, se gostar.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Pronúncia do Norte


Devia ter dezoito ou dezanove anos quando a conheci. Estava sozinha a bebericar café no balcão do bar da faculdade quando ela me abordou. Encostou-se a mim e meteu conversa. "Andas no meu ano, certo?". Parei de sorver café queimado e, com a proximidade que a estatura nos dava,  acenei com a cabeça, sorri, e respondi-lhe com mais detalhe do que aquele que pergunta exigia. " Ah! Tu és do Norte". A voz áspera e o tom de troça marcaram a evidente competição. Respirei fundo, prendi o ar nos pulmões por breves segundos e deixei-o sair devagar pelo nariz, fazendo um barulhinho inaudível. Pareceu-me que ia dizer qualquer coisa, pareceu-me que ia ser parcial, perder a compostura, agir sem bom senso nenhum. A  minha voz sumiu-se, envergonhada, com vontade de ser de lado nenhum. E ela ali a mirar-me altiva. A pertencer àquele lugar. A fazer daquele bar o seu. A cavar um fosso entre nós com cada palavra cerrada. As silabas certinhas, correctas, corridas. Pi-pi-pi. E eu a fugir dali para fora. Pi-pi-pi. Este comboio tem paragem na estação de Campanhã. Ela não sabe, mas foi a troça dela que me fez amar a minha pronuncia de forma inquestionável e tola, como se pusesse a minha própria vida debaixo de cada palavra. 

FRANGO COM CARIL
Adaptado do Livro " Cozinha para Quem Quer Poupar" da Mafalda Pinto Leite
Tempo de preparação: 60 minutos;
Serve: 4 pessoas;

  •  2 colheres de sopa de azeite;
  • 500 gr de frango desfiado e cozinhado ( aproveitamento de restos)
  • 1 alho francês grande;
  • 2 folhas de louro;
  • 2 dentes de alho;
  • 1 cebola;
  • 2 colheres de sopa de caril
  • 1 colher de chá de cominhos;
  • 20 gr de farinha;
  • 20 gr de manteiga;
  • 125 ml de leite de côco;
  • 250 ml de caldo de galinha;
  • 6 folhas de massa filo;
  • uma mão cheia de salsa;
  • sal e pimenta q.b.
Modo de preparação:
  1. Aqueça o forno a 180 Cº. Entretanto, aqueça o azeite em lume médio -baixo. Parta o alho francês em rodelas finas, pique a cebola e os dentes de alho. Adicione os legumes ao azeite quente, junte as folhas de louro e cozinhe até os legumes estarem moles. Adicione o frango, o alho, o caril e os cominhos e cozinhe mais um minuto.
  2. Junte a farinha e mexa por uns segundos. Retire do lume e adicione, gradualmente o leite de côco e o caldo de galinha (quente). Leve novamente ao lume médio-baixo e deixe borbulhar cerca de 20-30 minutos.
  3. Adicione a salsa e misture. Coloque o preparado dentro de uma taça de ir ao forno e cubra com as folhas de massa filo pinceladas com azeite. Pressione as margens para fechar. Leve ao forno cerca de 20 minutos ou até a massa estar dourada e estaladiça.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Superstition


Deviam ser seis da tarde quando o telefone tocou. Estridente, penetrante, inesperado. Enquanto caminhava com passos de velha na direcção que o sentido ordenava, ouviu um murmúrio no quarto. Um assobio. Uma gargalhada. Um barulho sobressaltante. Seria um gatuno? pensou baixinho. Ninguém. Assustou-se quando a empregada lhe trouxe o telefone, uma chamada importante, anunciou a criaturinha com azedume. Ouviu com atenção e, sem razão aparente, um calafrio percorreu-lhe o corpo. Teria o gatuno deixado a janela aberta? Estava calor no apartamento e a luz do fim da tarde espalhava-se dando à sala cor de clara de ovo. Combinado, anuiu acenando com a cabeça grisalha. O barulho continuava a persegui-la. Aproximou-se novamente do quarto e espreitou. Ninguém. Pegou na mala, num casaquinho fino e compôs a roupita alegre, preparando-se para sair. Fechou a porta do quarto à chave. Pediu um café de saco à empregada e zangou-se quando a criaturinha lhe trouxe uma chávena sem asa. Pressentia mãos delicadas a mexerem-lhe nas gavetas. Será uma mulher? Bateu com a chávena de café na mesa, a ver se a assustava. Comeu um pedaço de tarte de lima e retocou o batom vermelho antes de sair para o encontro. Rosalina nunca mais voltou.


TARTE DE LIMA
Tempo de preparação: 1h00
Serve: 10 fatias grandes;

  • 450 gr de bolachas digestivas(gosto de usar as de aveia);
  • 200 gr manteiga;
  • 2 latas de leite condensado;
  • 6 limas (sumo e raspa)
  • 8 gemas;
  • 250 ml natas frescas;
  • 1 colher de sopa de açúcar;
Modo de preparação:
  1. Pré-aqueça o forno a 180 Cº. Triture as bolachas num robot de cozinha até obter migalhas. Junte a manteiga derretida e amasse até obter uma mistura homogénea. Forre uma forma de tarte e leve ao forno´durante 20 a 25 minutos, ou até estar dourado e firme. Reserve e deixe arrefecer.
  2. Entretanto, com a ajuda de uma vara de arames, misture o leite condensado, o sumo e a raspa das limas e as gemas. O creme engrossará naturalmente. Verta o preparado sobre a base já fria e leve ao forno novamente a 150 Cº cerca de 25- 30 minutos. Retire e deixe o recheio assentar, de preferência de uma dia para o outro.
  3. Na hora de servir, bata as natas com o açúcar e espalhe sobre a tarte. Decore com raspas de lima e sirva.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Mútuo consentimento

Tinha dezoito anos quando a mãe a mandou para a casa dele servir.  Penteou com esmero o cabelo preto, prendeu-o na nuca e deixou-o cair numa trança larga sobre o desfiladeiro esguio das suas costas. Vestiu a melhor saia que tinha, calçou os seus únicos sapatos e pegou na mala de cartão velho, tal como a mãe ordenara.   O seu ar sério e submisso mal deixavam ver a rapariguinha que era.  Faz o que o senhor te mandar. E ela fazia. Mal o senhor apareceu detrás da pesada porta de acesso à Casa Grande, Ana soube que seria sua. E foi. Foi o amor do momento. Desse e de todos os que haviam de lhe seguir. Noite após noite, o senhor comandava-a para o leito, reclamando amor e carinho, ela obedecia sorrindo com os seus olhos cor de gelo. Aninhava-se junto a ele como um animal manso. Ficava acordada, a velar-lhe o sono, escutando-lhe o ressonar húmido, pausado, saciado. Tal como a mãe ordenara.  Ana  gastou a breve juventude a servi-lo. Na Casa Grande nunca ninguém via loiça por lavar, roupa por passar ou caça por amanhar. Ana trancava-se no caos da cozinha cheia de vapor, em pleno Verão, só para fazer um prato que o senhor gostasse. Um dia o senhor chegou a casa e anunciou que ia partir para o Brasil, não sabia quando voltava. Ana despediu-se e deixou-o ir. Acenou-lhe da janela e ainda lhe atirou um último beijo. Sem lamentos, sem lágrimas, tal como a mãe lhe ordenara.


LASANHA DE CARNE
Tempo de preparação: 1h 15 m
Serve: 4- 6 pessoas;

  • 2 colheres de sopa de azeite;
  • 25 + 75 gr de manteiga;
  • 75 gr de farinha;
  • 2 cebolas;
  • 1 folha de louro;
  • 100 ml de polpa de tomate;
  • 100 ml de vinho tinto;
  • 100 ml de caldo de carne;
  • 100+ 500 ml de leite;
  • 1 talo de aipo;
  • 1 cenoura;
  • uma mão cheia de salsa;
  • 2 dentes de alho;
  • 600 gr de carne de vaca magra;
  • 300 gr de queijo mozzarela;
  • queijo parmesão, q.b.;
  • placas de massa para lasanha ( frescas, de preferência)
  • sal, pimenta e noz moscada;


Modo de preparação:
  1. Pique finamente uma cebola, os dentes de alho, o aipo e a cenoura.
  2. Entretanto aqueça duas colheres de sopa de  azeite e 50 gr de manteiga em lume médio/forte e adicione a folha de louro, o aipo, o alho, a cenoura e a cebola e deixe cozinhar mexendo frequentemente, durante cerca de 5 minutos. Adicione a carne mexendo com um garfo para desfazer a carne e deixe cozinhar até a carne ganhar cor. Reduza o lume para médio e junte a polpa de tomate, mexendo sempre. Junte o vinho e o caldo de carne e baixe para lume brando. Deixe fervilhar meio tapado e vá juntando o leite ao poucos. Deixe cozinhar até engrossar, cerca de 45 minutos. Rectifique os temperos.
  3. Pré-aqueça o forno a 200 Cº. Entretanto, derreta 75 gr de manteiga em lume brando. Adicione a farinha e mexa até formar uma pasta. Cozinhe mexendo sempre, cerca de 2 minutos. Retire do lume e adicione os 700 ml de leite aos poucos até obter um molho cremoso. Leve a lume brando novamente, adicionando uma pitada de noz-moscada, uma folha de louro e uma cebola inteira, deixando borbulhar por alguns minutos. Reserve.
  4. Num prato de forno distribua duas ou três placas de massa de lasanha, conforme a capacidade do prato, cubra com carne picada, seguida de três ou quatro fatias de queijo mozzarella, queijo parmesão ralado, a gosto, e de molho branco. Vá alternando estas camadas até terminar. Cubra com molho branco e queijo.  Leve ao forno por cerca de 30 minutos ou até estar dourado. Sirva.


terça-feira, 6 de setembro de 2011

O Anzol

Sentou-se calmamente na cadeira do cabeleireiro à espera do milagre semanal que em minutos lhe tornava macio o cabelo crespo. Ao contrário do que era habitual, não lhe apetecia tagarelar com a rapariguinha que a penteava mecanicamente, nem deter-se nas conversas dispersas sobre a vida das figuras de sempre, Teresinha estava  pensativa. Sempre defendera o triunfo da razão sobre a emoção, porque raio esta decisão lhe estava a custar tanto? Tic-tac-tic-tac. O relógio que marcava o tempo para o milagre, parecia marcar o compasso da sinfonia do seu desespero. Ecoava. Acalma-te, Teresinha, pensou. Para ela o casamento tinha sido um contrato, nem mais. Nunca tinha sequer fingido que amava o marido, não via qualquer interesse em enganar-se a si própria, deixava a simulação para o resto do Mundo. Não via no marido mais nada a não ser o dinheiro. Agora que o dinheiro acabara, queria poder desembaraçar-se dele, rapidamente, como se fosse um vómito. Tic-tac-tic-tac. Porque raio esta decisão lhe estava a custar tanto? Não a incomodava o sofrimento do marido. Imaginava-o a chorar aninhado num canto do quarto, a implorar que não  partisse. Tic-tac-tic-tac. Incomodava-a pensar que tinha que voltar a lançar o anzol.


SOPA DE PEIXE
Tempo de preparação: 35 minutos;
Serve: 4 pessoas;


  • 500 gr peixe branco variado (cação, cherne,tamboril);
  • 16 camarões;
  • uma chávena de ervilhas congeladas;
  • 4 ovos;
  • 4 batatas;
  • 2 cebolas pequenas;
  • 3 dentes de alho;
  • 2 folhas de louro;
  • um ramo de salsa;
  • um molho de coentros;
  • azeite, sal e pimenta;
Modo de preparação: 
  1. Coza o peixe, o marisco, e os ovos, com o louro, a salsa, um dente de alho, uma cebola, sal e pimenta. Retire o peixe, o marisco e os ovos e reserve o caldo.
  2. Desfaça o peixe em lascas, retirando as peles e as espinhas, descasque os camarões e os ovos. Reserve.
  3. Entretanto, descasque as batatas e parta-as em cubos.
  4. Leve uma panela ao lume com um fio generoso de azeite. Refogue uma cebola e dois dentes de alho. Coe e adicione o caldo da cozedura do peixe e deixe levantar fervura. Junte as batatas e as ervilhas e deixe cozer. 
  5. Por fim, junte o peixe e o marisco, os coentros e os ovos, ambos grosseiramente picados. Rectifique os temperos e sirva.