sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Asas Delta


Clara nunca esteve sozinha. Nem nunca estará. Acredita sempre que é desta, que finalmente encontrou o amor. Como de costume, apressa-se a apresenta-lo à família, aos amigos, aos colegas. Como se o juízo deles lhe mudasse o rumo da decisão. Não muda. E ela bem sabe disso. Deixa a ponta solta. E vai ser sempre assim. Troca gestos infantis com ele à frente de toda a gente. Agarra-se a ele, troca mensagens em código, olhares de cumplicidade. Que bem que ela representa o papel. No fundo, Clara sabe que tão depressa ata o nó como o desata e procura novo amor. De pulo em pulo, como se tivesse asas nos pés.


PÃO DE QUEIJO COM SEMENTES DE PAPOILA
Tempo de preparação: 25 minutos + 20 cozedura;
Serve: 6-8 pessoas;

  • 2 chávenas de leite;
  • 200 gr de manteiga;
  • 1 colher de sopa de sal;
  • 200 gr de queijo ralado (uso tipo flamengo)
  • 500 gr de farinha de mandioca;
  • 3 ovos;
  • sementes de papoila para decorar;
Modo de preparação:
  1. Pré-aqueça o forno a 190 Cº e forre um tabuleiro com papel vegetal.
  2. Entretanto, leve o leite e a manteiga ao lume até a manteiga estar derretida. Reserve.
  3. Numa tigela grande, junte a farinha de mandioca ao sal. Acrescente o leite e manteiga derretidos e bata até obter ruma massa homogénea. Junte os ovos, um a um, sem deixar de bater. 
  4. Finalmente acrescente o queijo ralado.
  5. Forme bolinhas de massa e disponha no tabuleiro já preparado, deixando intervalos para os pães crescerem.
  6. Polvilhe sementes por cima dos pães e leve ao forno até estar dourado. Sirva quente.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Løb Stop Stå- Parar


Lembrava-se bem do mês e do dia. Com um pouco de esforço, podia até recordar a roupa que tinha vestida quando o marido lhe deu as chaves do carro novo. O gozo que lhe dava estacionar no parque da empresa, abrir a mala e passar as unhas impecáveis no símbolo cromado. Ti-ti. Aquele gesto de abrir e fechar portas no modo automático dava-lhe um sentimento de triunfo. Chegava ao escritório e pousava as chaves do carro em cima da mesa. Um troféu saloio que, juntamente com pares de sapatos e carteiras de luxo, fazia questão de exibir. Fiz por merecê-lo, dizia, imprimindo à voz um tom ligeiramente brejeiro, quase impudico, a provocar o pensamento alheio. Acariciava o volante cor de vinho com ternura e referia-se ao carro sempre na terceira pessoa, como se fosse um amante. Só ela sabia a dor que tinha sentido quando o anúncio foi publicado no jornal. Quando os papeis chegaram a casa. Quando aqueles homens bateram à porta, levaram as chaves e os documentos. Teresinha podia perdoar tudo ao marido. Menos que deixasse levarem-lhe o carro.


PÊRAS EM CALDA DE VINHO, MEL E ANIS ESTRELADO
Tempo de preparação: 30 minutos;
Serve: 6-8 pessoas;
  • 4 pêras grandes;
  • 3 estrelas de anis;
  • 2 colheres de sopa de pimenta preta;
  • 3 colheres de sopa de mel;
  • 3 colheres de sopa de açúcar;
  • 500 ml de vinho maduro tinto;
Modo de preparação:
  1. Descasque as pêras e corte-as ao meio.
  2. Misture o vinho, o mel, o açúcar, o anis estrelado e a pimenta e regue as pêras. Leve ao lume brando, cerca de 30 minutos ou até as pêras estarem cozidas. Deixe arrefecer.
  3. Sirva com gelado de nata, se gostar.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Pronúncia do Norte


Devia ter dezoito ou dezanove anos quando a conheci. Estava sozinha a bebericar café no balcão do bar da faculdade quando ela me abordou. Encostou-se a mim e meteu conversa. "Andas no meu ano, certo?". Parei de sorver café queimado e, com a proximidade que a estatura nos dava,  acenei com a cabeça, sorri, e respondi-lhe com mais detalhe do que aquele que pergunta exigia. " Ah! Tu és do Norte". A voz áspera e o tom de troça marcaram a evidente competição. Respirei fundo, prendi o ar nos pulmões por breves segundos e deixei-o sair devagar pelo nariz, fazendo um barulhinho inaudível. Pareceu-me que ia dizer qualquer coisa, pareceu-me que ia ser parcial, perder a compostura, agir sem bom senso nenhum. A  minha voz sumiu-se, envergonhada, com vontade de ser de lado nenhum. E ela ali a mirar-me altiva. A pertencer àquele lugar. A fazer daquele bar o seu. A cavar um fosso entre nós com cada palavra cerrada. As silabas certinhas, correctas, corridas. Pi-pi-pi. E eu a fugir dali para fora. Pi-pi-pi. Este comboio tem paragem na estação de Campanhã. Ela não sabe, mas foi a troça dela que me fez amar a minha pronuncia de forma inquestionável e tola, como se pusesse a minha própria vida debaixo de cada palavra. 

FRANGO COM CARIL
Adaptado do Livro " Cozinha para Quem Quer Poupar" da Mafalda Pinto Leite
Tempo de preparação: 60 minutos;
Serve: 4 pessoas;

  •  2 colheres de sopa de azeite;
  • 500 gr de frango desfiado e cozinhado ( aproveitamento de restos)
  • 1 alho francês grande;
  • 2 folhas de louro;
  • 2 dentes de alho;
  • 1 cebola;
  • 2 colheres de sopa de caril
  • 1 colher de chá de cominhos;
  • 20 gr de farinha;
  • 20 gr de manteiga;
  • 125 ml de leite de côco;
  • 250 ml de caldo de galinha;
  • 6 folhas de massa filo;
  • uma mão cheia de salsa;
  • sal e pimenta q.b.
Modo de preparação:
  1. Aqueça o forno a 180 Cº. Entretanto, aqueça o azeite em lume médio -baixo. Parta o alho francês em rodelas finas, pique a cebola e os dentes de alho. Adicione os legumes ao azeite quente, junte as folhas de louro e cozinhe até os legumes estarem moles. Adicione o frango, o alho, o caril e os cominhos e cozinhe mais um minuto.
  2. Junte a farinha e mexa por uns segundos. Retire do lume e adicione, gradualmente o leite de côco e o caldo de galinha (quente). Leve novamente ao lume médio-baixo e deixe borbulhar cerca de 20-30 minutos.
  3. Adicione a salsa e misture. Coloque o preparado dentro de uma taça de ir ao forno e cubra com as folhas de massa filo pinceladas com azeite. Pressione as margens para fechar. Leve ao forno cerca de 20 minutos ou até a massa estar dourada e estaladiça.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Superstition


Deviam ser seis da tarde quando o telefone tocou. Estridente, penetrante, inesperado. Enquanto caminhava com passos de velha na direcção que o sentido ordenava, ouviu um murmúrio no quarto. Um assobio. Uma gargalhada. Um barulho sobressaltante. Seria um gatuno? pensou baixinho. Ninguém. Assustou-se quando a empregada lhe trouxe o telefone, uma chamada importante, anunciou a criaturinha com azedume. Ouviu com atenção e, sem razão aparente, um calafrio percorreu-lhe o corpo. Teria o gatuno deixado a janela aberta? Estava calor no apartamento e a luz do fim da tarde espalhava-se dando à sala cor de clara de ovo. Combinado, anuiu acenando com a cabeça grisalha. O barulho continuava a persegui-la. Aproximou-se novamente do quarto e espreitou. Ninguém. Pegou na mala, num casaquinho fino e compôs a roupita alegre, preparando-se para sair. Fechou a porta do quarto à chave. Pediu um café de saco à empregada e zangou-se quando a criaturinha lhe trouxe uma chávena sem asa. Pressentia mãos delicadas a mexerem-lhe nas gavetas. Será uma mulher? Bateu com a chávena de café na mesa, a ver se a assustava. Comeu um pedaço de tarte de lima e retocou o batom vermelho antes de sair para o encontro. Rosalina nunca mais voltou.


TARTE DE LIMA
Tempo de preparação: 1h00
Serve: 10 fatias grandes;

  • 450 gr de bolachas digestivas(gosto de usar as de aveia);
  • 200 gr manteiga;
  • 2 latas de leite condensado;
  • 6 limas (sumo e raspa)
  • 8 gemas;
  • 250 ml natas frescas;
  • 1 colher de sopa de açúcar;
Modo de preparação:
  1. Pré-aqueça o forno a 180 Cº. Triture as bolachas num robot de cozinha até obter migalhas. Junte a manteiga derretida e amasse até obter uma mistura homogénea. Forre uma forma de tarte e leve ao forno´durante 20 a 25 minutos, ou até estar dourado e firme. Reserve e deixe arrefecer.
  2. Entretanto, com a ajuda de uma vara de arames, misture o leite condensado, o sumo e a raspa das limas e as gemas. O creme engrossará naturalmente. Verta o preparado sobre a base já fria e leve ao forno novamente a 150 Cº cerca de 25- 30 minutos. Retire e deixe o recheio assentar, de preferência de uma dia para o outro.
  3. Na hora de servir, bata as natas com o açúcar e espalhe sobre a tarte. Decore com raspas de lima e sirva.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Mútuo consentimento

Tinha dezoito anos quando a mãe a mandou para a casa dele servir.  Penteou com esmero o cabelo preto, prendeu-o na nuca e deixou-o cair numa trança larga sobre o desfiladeiro esguio das suas costas. Vestiu a melhor saia que tinha, calçou os seus únicos sapatos e pegou na mala de cartão velho, tal como a mãe ordenara.   O seu ar sério e submisso mal deixavam ver a rapariguinha que era.  Faz o que o senhor te mandar. E ela fazia. Mal o senhor apareceu detrás da pesada porta de acesso à Casa Grande, Ana soube que seria sua. E foi. Foi o amor do momento. Desse e de todos os que haviam de lhe seguir. Noite após noite, o senhor comandava-a para o leito, reclamando amor e carinho, ela obedecia sorrindo com os seus olhos cor de gelo. Aninhava-se junto a ele como um animal manso. Ficava acordada, a velar-lhe o sono, escutando-lhe o ressonar húmido, pausado, saciado. Tal como a mãe ordenara.  Ana  gastou a breve juventude a servi-lo. Na Casa Grande nunca ninguém via loiça por lavar, roupa por passar ou caça por amanhar. Ana trancava-se no caos da cozinha cheia de vapor, em pleno Verão, só para fazer um prato que o senhor gostasse. Um dia o senhor chegou a casa e anunciou que ia partir para o Brasil, não sabia quando voltava. Ana despediu-se e deixou-o ir. Acenou-lhe da janela e ainda lhe atirou um último beijo. Sem lamentos, sem lágrimas, tal como a mãe lhe ordenara.


LASANHA DE CARNE
Tempo de preparação: 1h 15 m
Serve: 4- 6 pessoas;

  • 2 colheres de sopa de azeite;
  • 25 + 75 gr de manteiga;
  • 75 gr de farinha;
  • 2 cebolas;
  • 1 folha de louro;
  • 100 ml de polpa de tomate;
  • 100 ml de vinho tinto;
  • 100 ml de caldo de carne;
  • 100+ 500 ml de leite;
  • 1 talo de aipo;
  • 1 cenoura;
  • uma mão cheia de salsa;
  • 2 dentes de alho;
  • 600 gr de carne de vaca magra;
  • 300 gr de queijo mozzarela;
  • queijo parmesão, q.b.;
  • placas de massa para lasanha ( frescas, de preferência)
  • sal, pimenta e noz moscada;


Modo de preparação:
  1. Pique finamente uma cebola, os dentes de alho, o aipo e a cenoura.
  2. Entretanto aqueça duas colheres de sopa de  azeite e 50 gr de manteiga em lume médio/forte e adicione a folha de louro, o aipo, o alho, a cenoura e a cebola e deixe cozinhar mexendo frequentemente, durante cerca de 5 minutos. Adicione a carne mexendo com um garfo para desfazer a carne e deixe cozinhar até a carne ganhar cor. Reduza o lume para médio e junte a polpa de tomate, mexendo sempre. Junte o vinho e o caldo de carne e baixe para lume brando. Deixe fervilhar meio tapado e vá juntando o leite ao poucos. Deixe cozinhar até engrossar, cerca de 45 minutos. Rectifique os temperos.
  3. Pré-aqueça o forno a 200 Cº. Entretanto, derreta 75 gr de manteiga em lume brando. Adicione a farinha e mexa até formar uma pasta. Cozinhe mexendo sempre, cerca de 2 minutos. Retire do lume e adicione os 700 ml de leite aos poucos até obter um molho cremoso. Leve a lume brando novamente, adicionando uma pitada de noz-moscada, uma folha de louro e uma cebola inteira, deixando borbulhar por alguns minutos. Reserve.
  4. Num prato de forno distribua duas ou três placas de massa de lasanha, conforme a capacidade do prato, cubra com carne picada, seguida de três ou quatro fatias de queijo mozzarella, queijo parmesão ralado, a gosto, e de molho branco. Vá alternando estas camadas até terminar. Cubra com molho branco e queijo.  Leve ao forno por cerca de 30 minutos ou até estar dourado. Sirva.


terça-feira, 6 de setembro de 2011

O Anzol

Sentou-se calmamente na cadeira do cabeleireiro à espera do milagre semanal que em minutos lhe tornava macio o cabelo crespo. Ao contrário do que era habitual, não lhe apetecia tagarelar com a rapariguinha que a penteava mecanicamente, nem deter-se nas conversas dispersas sobre a vida das figuras de sempre, Teresinha estava  pensativa. Sempre defendera o triunfo da razão sobre a emoção, porque raio esta decisão lhe estava a custar tanto? Tic-tac-tic-tac. O relógio que marcava o tempo para o milagre, parecia marcar o compasso da sinfonia do seu desespero. Ecoava. Acalma-te, Teresinha, pensou. Para ela o casamento tinha sido um contrato, nem mais. Nunca tinha sequer fingido que amava o marido, não via qualquer interesse em enganar-se a si própria, deixava a simulação para o resto do Mundo. Não via no marido mais nada a não ser o dinheiro. Agora que o dinheiro acabara, queria poder desembaraçar-se dele, rapidamente, como se fosse um vómito. Tic-tac-tic-tac. Porque raio esta decisão lhe estava a custar tanto? Não a incomodava o sofrimento do marido. Imaginava-o a chorar aninhado num canto do quarto, a implorar que não  partisse. Tic-tac-tic-tac. Incomodava-a pensar que tinha que voltar a lançar o anzol.


SOPA DE PEIXE
Tempo de preparação: 35 minutos;
Serve: 4 pessoas;


  • 500 gr peixe branco variado (cação, cherne,tamboril);
  • 16 camarões;
  • uma chávena de ervilhas congeladas;
  • 4 ovos;
  • 4 batatas;
  • 2 cebolas pequenas;
  • 3 dentes de alho;
  • 2 folhas de louro;
  • um ramo de salsa;
  • um molho de coentros;
  • azeite, sal e pimenta;
Modo de preparação: 
  1. Coza o peixe, o marisco, e os ovos, com o louro, a salsa, um dente de alho, uma cebola, sal e pimenta. Retire o peixe, o marisco e os ovos e reserve o caldo.
  2. Desfaça o peixe em lascas, retirando as peles e as espinhas, descasque os camarões e os ovos. Reserve.
  3. Entretanto, descasque as batatas e parta-as em cubos.
  4. Leve uma panela ao lume com um fio generoso de azeite. Refogue uma cebola e dois dentes de alho. Coe e adicione o caldo da cozedura do peixe e deixe levantar fervura. Junte as batatas e as ervilhas e deixe cozer. 
  5. Por fim, junte o peixe e o marisco, os coentros e os ovos, ambos grosseiramente picados. Rectifique os temperos e sirva.




quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Learn to fly


Agosto está de partida. Em menos de vinte e quatro horas esta casa mergulhará em silêncio. Um silêncio tumular, obrigatório, contido, como se todas as horas do dia fossem hora de sesta. Tudo calado. Sou intransigente com a hora da sesta. Shiiiu. Mas, mamã eu não quero dormir a sesta. Shiiuu. Adoro a hora da sesta. Puro egoísmo, confesso. Adoro enfiar-me ao teu lado  nesta caminha branca de cordeirinhos recortados. Tapo-me com a colcha colorida e aconchego-me na maciez da tua pele. Adoro ficar aqui encaixada em ti, como se ainda  fossemos duas peças do mesmo puzzle. Agarrar-te, beijar-te e segurar o cordão bem preso, meu pequenino. Shiiuu. Escuto a tua respiração sincopada, sinto a tua pressa de viver. não quero dormir mamã. Lá fora um passarinho pequeno pia baixinho, manso, a lembrar-me de que tu, um dia, também vais querer voar.


PATANISCAS DE BACALHAU E AZEITONAS
Tempo de preparação: 10 minutos + 30 minutos de fritura;
Serve: 6-8 pessoas;

  • 3 postas de bacalhau grosso (cerca de 500 gr);
  • 250 gr de farinha;
  • 4 ovos;
  • 1 colher de chá de fermento em pó;
  • 1 cebola grande;
  • 2 dentes de alho;
  • 30 azeitonas pretas, mais ou menos;
  • uma mão cheia de salsa;
  • sal e pimenta preta;
  • óleo para fritar;
Modo de preparação:
  1. Pique finamente a cebola, os dentes de alho e a salsa.
  2. Desfaça o bacalhau em lascas, não muito finas. Parta as azeitonas em rodelas ou em pedaços, como preferir.
  3. Entretanto, numa tigela grande misture os ovos batidos com a farinha e o fermento até obter um polme homogéneo. Acrescente os restantes ingredientes e envolva bem. Tempere a gosto com sal e pimenta.
  4. Coloque uma colher de sobremesa de massa a fritar no óleo quente por uns minutos deixando dourar de ambos os lados. Retire e deixe repousar em papel absorvente até à hora de servir.