quarta-feira, 20 de julho de 2011

Every Teardrop Is A Waterfall

Não aconteceu em vão, aconteceu porque tinha que ser. Repete esta frase vezes sem conta enquanto enfia os dedos gordos na lata onde guarda a farinha. Consola-se a pensar em gente moribunda, mutilada, doente, pegajosa. De repente, parece que a guerra de longe está ali, a bater-lhe à porta. E ela serena. Aconteceu assim porque tinha que ser. Afasta os cacarecos que tem em cima da bancada preta da cozinha e guarda com cuidado os naperons de linho grosso. Uma exposição de mau gosto que visita todos os dias. Vai amassando o pão com força, em jeito de disfarce para o fastio que sente pela sua vida medíocre. Um cheiro morno a alecrim inunda a casa enorme. Abre a boquinha pequena para soltar um grito áspero.  Faltará sal ou azeite. Em quarenta e dois anos nunca o marido lhe elogiou o estilo culinário. Senta-se à frente dele e mastiga em silêncio. Olha-o com uma pontinha de emoção. Casou-se com ele porque tinha que ser. Álvaro abre a boca e deixa escapar, como se deixasse cair uma moeda da algibeira, está muito bom. Lágrimas redondas e salgadas rolam-lhe pela face. Três. Três lágrimas.

FOCACCIA DE AZEITONAS E ALECRIM
(ligeiramente adaptada daqui)
Serve: 1 focaccia grande;
Tempo de preparação: 15+ 45+ 30 ( levedura) + 30 (cozedura)

  • 430gr de farinha;
  • 2 colheres de sopa de alecrim + 2 hastes para decorar;
  • 7gr de fermento instantaneo seco;
  • 1 colher de chá de sal + extra para polvilhar;´
  • 1 colher de chá de mel;
  • 300ml de água morna;
  • 1 + 2 colheres de sopa de azeite;
  • 20 azeitonas pretas sem caroço;
Modo de preparação:
  1. Numa tigela grande, misture a farinha, o alecrim, o sal e uma colher de azeite. Mexa para incorporar os ingredientes.
  2. Entretanto misture a água morna com o fermento e o mel. Aguarde até que se formem bolhas à superficie. Faça uma cova no centro da farinha e misture com uma colher de pau até que uma massa se  comece a formar. Transfira para uma superfície levemente enfarinhada cerca de 10 minutos. Como esta massa é muito macia e  um pouco pegajosa, pode optar por sova-la numa batedeira electrica durante cerca de 10 minutos.
  3. Faça uma bola com a massa e coloque em uma tigela grande, levemente untada com azeite e enfarinhe a superficie. Cubra com pelicula aderente e deixe levedar cerca de 45 minutos ou até que dobre o seu tamanho.
  4. Unte com azeite uma assadeira grande, de beiradas baixas. Transfira a massa para a assadeira e pressione levemente para retirar o excesso de ar. Dê à massa um formato ovalado, fazendo que com que tenha aproximadamente 2cm de espessura e 25cm de comprimento. Pincele levemente com azeite e cubra novamente com pelicula aderente. Deixe levedar ela segunda vez, durante cerca de  por cerca de 30 minutos ou até que duplique novament eo tamanho.
  5. Pré-aqueça o forno a 220°C. Retire a pelicula aderente da focaccia. Polvilhe com farinha as pontas dos seus três dedos centrais de uma das mãos e faça furinhos em toda a extensão da massa (sem deixar que atravessem o fundo). Pressione pedaços de azeitona nos buracos. Pincele a massa com 2 colheres de sopa de azeite e pressione raminhos de alecrim na massa e polvilhe com sal grosso.
  6. Deixe cozer até que o topo da foccacia fique dourado, cerca de 25 minutos. Retire do forno e sirva ainda morna.
NOTA: Esta receita participa no desafio do 3º aniversário do blogue Figo Lampo. Longa Vida ao Figo Lampo e muitos parabéns!

sábado, 16 de julho de 2011

Funny the way it is




"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."

Fernando Pessoa


Hoje este bloque celebra um ano de publicações. Um ano de travessias. Obrigada por lerem, comentarem e estarem sempre por aí.


PORTO TÓNICO COM FRUTOS SILVESTRES
(ligeiramente adaptada da receita de Marcelo Machado)
Serve: 1 
Tempo d preparação: 2 minutos;

  • 50 ml de vinho do Porto branco;
  • 50 ml de água tónica;
  • Sumo e casca de meia lima;
  • várias pedras de gelo;
  • uma mão ceia de frutos silvestres (usei congelados)
Modo de preparação:
  1. Misture todos os ingredientes e sirva num copo gelado. Divirta-se e ouse fazer travessias. Sempre.


segunda-feira, 11 de julho de 2011

Walk


Desci a Rua José Malgueira com passos curtos e desajeitados. Os pés gritavam-me insultos agudos que eu fazia de conta não ouvir. Quando encostei a barriga ao balcão caruchoso da mercearia quase respirei de alivio. Um sorriso malandro e um piropo infantil receberam-me com a simpatia de sempre. O que vai ser, cara linda? Tirar os sapatos e cortar os pés, Sr. Paulino. O raio das sandálias nem me deixavam pensar. Tudo ordenado nas prateleiras de madeira, com os preços escritos a lápis em papelinhos amarelos cortados à mão. Sabão Clarim, Omo Roupa Branca,  Limpa Metais Coração, Sonasol Lava Tudo Amoniacal. Farinha Branca de Neve, Pó Royal, Chocolate Pantagruel. Papel higiénico, Guardanapos de papel às florinhas, Toalhas de mesa de plástico axadrezado. Sabonetes Alfazema, Old Spice e Frutos secos. Temos de tudo, cara linda, é só escolher. Alheiras de Mirandela, queijo da Serra, azeitonas e tremoços.  Um corte de bacalhau, Sr. Paulino. Deixe ficar os pés.


  
MEIA DESFEITA ou SALADA DE BACALHAU
(Adaptada da Revista Blue Cooking nº 41)
Serve: 4 pessoas;
Tempo de preparação: 15 minutos, mais ou menos
  • 2 postas de bacalhau;
  • 200 gr de feijão verde;
  • 400 gr de grão de bico cozido;
  • 1 cebola grande;
  • 1 dente de alho;
  • 3 colheres de sopa de azeite;
  • 1/2 malagueta fresca;
  • 1 Courguette pequena;
  • 1 colher de sopa de colorau;
  • 2 colheres de sopa de salsa picada;
  • sal e pimenta preta q.b;
Modo de preparação:
  1. Coza o bacalhau e o feijão verde. Reserve.
  2. Pique a cebola e o dente de alho finamente. Leve o azeite ao lume e refogue a cebola e até ficar ficar translúcida. Junte o colorau e acrescente o alho e a courgette. Deixe cozinhar lentamente até a courgette estar cozida, mas sem estar mole.
  3. Junte o feijão verde e o grão e envolva bem.
  4. Adicione o bacalhau em lascas.
  5. Pique a malagueta e polvilhe com salsa picada. Rectifique os temperos e sirva. Quente ou fria.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Proud Mary

Nem mais tarde, nem mais cedo. Maria despertou à mesma hora de sempre. Há muito que era o corpo o relógio da sua vida. Nunca se tinha enganado. Espreguiçou-se num gesto rápido e contido e saiu da cama como se saltasse para um precipício. Para trás deixou o bafo húmido do marido. Um corpo grande e feio, encharcado em ronco e vinho. Sem acender a luz, mirou-se no minúsculo espelho da casa-de-banho. Os olhos grandes e esbugalhados devolveram-lhe uma imagem que não reconhecia. Quem era aquela mulher velha e cansada? De quem era aquele rosto desbotado? Vermelho, de frio e de sol. Sacudiu o cheiro a naftalina e vestiu-se sem convicção. Camisola  de algodão baço, casaco de malha cor de cereja, saia preta,  avental de  chita. Em minutos estaria no único lugar de que era dona. Dona Maria. Tem pimentos amarelos? Tenho filha, tenho.
  

MINI-TARTES DE PIMENTOS, QUEIJO MANCHEGO E IOGURTE
Tempo de preparação: 25 minutos + 25 minutos cozedura;
Serve: 4-5 mini-tartes;

  • 220 gr farinha;
  • 1 colher de chá de fermento instantâneo seco;
  • 2+ 2+ 2 colheres de sopa de azeite;
  • 1 ovo;
  • 80 ml de água morna;
  • 1 pimento vermelho;
  • 1 pimento verde;
  • 2 pimentos amarelos;
  • 3 dentes de alho;
  • 1 cebola roxa;
  • 100 + 30 gr de queijo manchego;
  • 30 gr de queijo parmesão;
  • 200 gr de iogurte grego;
  • uma mão cheia de óregãos;
  • uma mão cheia de salsa;
  • sal e pimenta preta;
Modo de preparação:

  1. Corte os pimentos e a cebola roxa em tiras. Pique um dente de alho finamente. Leve duas colheres de sopa de azeite ao lume e adicione os pimentos, a cebola e o alho. Deixe refogar, até os pimentos estarem cozinhados. Reserve.
  2. Misture a farinha com uma pitada de sal. Forme uma cova no centro e junte o ovo e duas colheres de azeite. Misture bem.
  3. Entretanto, dissolva o fermento na água morna. Tape por uns minutos, com um pano ou película aderente, até que se formem bolhas à superfície. Adicione à mistura de farinha e sove por 10 minutos, ou até obter uma massa homogénea e ligeiramente elástica.
  4. Forre formas de tarte pequenas (ou uma forma grande de 23 cm) com a massa.
  5. Numa tigela misture o iogurte grego com o queijo ralado e duas colheres de sopa de azeite. Tempere com pimenta preta moída na hora. Como os queijos são fortes, não precisa adicionar sal.
  6. Barre a massa com a mistura de iogurte e disponha os legumes por cima. Polvilhe com oregãos e com um pouco mais de queijo manchego. Leve ao forno cerca de 25 minutos, ou até a massa estar dourada e o queijo derretido. Polvilhe com salsa picada grosseiramente e sirva imediatamente. Pode servir de entrada ou, acompanhado com uma boa salada e um copo de vinho branco, de prato principal.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Isn´t She Lovely


Percorre a clínica na ponta dos saltos. Já todos conhecem os compassos do seu percurso. Primeiro a cafetaria, depois o consultório. Veste bata branca imaculada. De corte moderno, mando-a fazer de propósito a uma costureira muito jeitosa que lhe indicou uma amiga. Não podes andar nessas figuras. Bata larga, desajustada. Mandou fazer cinco. Uma para cada dia de consulta. Trá-la desabotoada, deixando ver o conjuntinho novo que comprou no fim-de-semana. É dificil adivinhar a perfeição daquele corpo mergulhado em consumo. Como se fosse uma calda, uma conserva. Traz tudo. Aneis, brincos, pulseiras e quanta mais tralha houver em casa. Guarda bugigangas numa caixa em pele que o ex-marido lhe deu. Todos os dias olha para o raio da caixa e lembra-se dele. Vou deita-la fora. Mas nunca deita. Tudo ali pendurado, a apimentar o olhar de quem a vê passar. Apressada, indiferente, de bloco de notas na mão. Em surdina, como se fosse pecado, Branca conta a uma enfermeira que agora  não come doces. Que pena que eu tenho da Branca.


TARTE DE PÊSSEGO E FRUTOS SILVESTRES
Tempo de preparação: 25 minutos+ 40 minutos de cozedura;
Serve: 8-10 fatias grandes;

  • 270 gr + 90 gr de farinha;
  • 125 gr+ 45 gr de manteiga;
  • 90 gr + 90 gr de açúcar mascavado claro;
  • 2 ovos;
  • 2 colheres de chá de fermento em pó;
  • 300 gr de pêssego;
  • uma mão cheia de frutos silvestres (framboesas, mirtilos, amoras, groselhas) congelados;
  • 1 colher de sopa de doce de pêssego;
  • 1 colher de sopa de vinho do Porto;
Modo de preparação:
  1. Coloque 270 gr de farinha, 125 gr de manteiga partida em cubos e 90 gr de açúcar num robot de cozinha. Bata até obter migalhas. Adicione um ovo e bata novamente até obter uma massa homogénea. Retire do robot de cozinha e amasse mais um pouco. Forme uma bola e estique a massa com a espessura de cerca de 3mm e forre a base pretendida.
  2. Para fazer uma massa fofa que servirá de recheio, bata a restante manteiga com o açúcar. Assim que estiver bem ligado adicione o ovo e o fermento. Finalmente incorpore delicadamente a farinha.
  3. Deite a massa fofa por cima da base de tarte espalhando até ficar homogéneo. Por cima coloque a fruta, pressionando ligeiramente.
  4. Leve ao forno a 180 Cº cerca de 40-45 minutos, ou até estar firme e tostada. Retire do forno e deixe arrefecer.
  5. Entretanto aqueça o doce de pêssego até ficar liquido e adicione o vinho do Porto. Com a ajuda de um pincel de cozinha, espalhe o doce por cima do recheio da tarte. Sirva.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Cara Valente


Aos dez anos deixou a escola. Aos dezasseis casou-se. Ainda não tinha completado trinta e três anos quando lhe nasceu o primeiro neto. Depressa percebeu que no seu relógio as horas não eram perpétuas e as bocas que pediam comida multiplicavam-se a cada minuto. Sempre que o barco se afastava da terra pensava neles. Nos filhos, nos netos. Não quero que sejam pescadores, disse um dia aos amigos, batendo decidido o às de copas na mesa de pedra. Soltou as amarras e as palavras zarparam-lhe boca fora. Ninguém lhe respondeu.  O Mar podia ouvir. Zangar-se. E as mulheres a trocarem os lenços brancos pelos xailes pretos. E o barco a partir e a anunciar o fim. Gaspar gostava de pensar que o futuro dos seus seria diferente. Sem a pele curtida, sem as aspas desenhadas nos cantos dos olhos, sem o medo de não voltar.

SARDINHAS DE ESCABECHE
Tempo de preparação: 15 minutos, mais ou menos;
Serve: 4-6 pessoas;

  • 8 sardinhas;
  • 1 cenoura;
  • 1 cebola;
  • 2 dentes de alho;
  • 125 ml de vinagre;
  • 125 ml de água;
  • 2 folhas de louro;
  • 1 colher de sopa de polpa de tomate;
  • 1 colher de sopa de Vinho da Madeira;
  • 2 colheres de sopa de azeite + extra para fritar;
  • farinha q.b.;
  • uma mão cheia de salsa;
Modo de preparação:
  1. Tempere as sardinhas com sal. Passe-as por farinha. Leve uma panela com azeite ao lume e disponha as sardinhas, numa só camada, deixando-as alourar de um lado e de outro. Quando estiverem douradas, retire do lume e transfira para um prato de servir.
  2. Entretanto, parta a cebola e a cenoura em rodelas finas e pique os dentes de alho e a salsa finamente.
  3. Leve o azeite ao lume num tacho pequeno. Junte as rodelas de cebola e assim que estiverem moles junte a cenoura. Deixe apurar uns minutos e acrescente o alho e as folhas de louro. Quando começar a cheirar bem adicione a polpa de tomate, o vinagre e o vinho. Deixe ferver cerca de 5 minutos e adicione a água. Deixe o molho ferver até ter consistência.
  4. Retire as folhas de louro e regue as sardinhas com o molho e polvilhe com salsa picada. Sirva quente ou frio.
  5. Se tiver tempo e paciência, em vez de usar as sardinhas inteiras, arranje-as em filetes.....

terça-feira, 21 de junho de 2011

Blackbird


Entrou na sala branca a medo e pousou a cesta de verga no chão. Sentou-se devagarinho na ponta da cadeira já gasta e olhou a toda a volta, como se alguém a pudesse ver. Sentava-se sempre na ponta das cadeiras. Detestava ficar com a pernas bambas, suspensas, na evidência da sua pequenez. Pela nesga da janela que emoldurava a jaula branca entrava um fio de Sol. Até o Verão era tímido naquele lugar. Olhou fixamente para a porta fechada e adivinhou o silencio dos corredores. Um arrepio percorreu-lhe o corpo miúdo. Temeu a hora em que a trariam, de pantufas, poisada numa cadeira de rodas, despenteada, vaga. Tenho tantas saudades tuas, Avó. Olhou para ela com admiração. Gosto tanto de ti, Avó. Tatuou-lhe os lábios no rosto e acariciou-lhe as mãos. Lágrimas invisíveis jorraram-lhe dos olhos negros quando percebeu que a Avó a mirava com espanto. Um olhar perdido no absurdo daquela mulher de casaco vermelho.  E tu quem és? Sou eu Avó, não te lembras? Sou o capuchinho vermelho.



SALADA DE FEIJÃO-FRADE, TOMATE E MALAGUETA
(Adaptada do Livro "Cozinha Para Quem Não Tem Tempo" da Chef Mafalda Pinto Leite)
Tempo de preparação: 10 minutos, ou menos;
Serve: 2-4 pessoas;

  • 400 gr de feijão-frade cozido;
  • 1 malagueta fresca sem sementes;
  • 2 tomates pequenos;
  • 1 cebola roxa;
  • 1 dente de alho;
  • uma mão cheia de salsa;
  • 1 colher de sopa de azeite;
  • 3 colheres de sopa de vinagre de vinho branco;
  • sal e pimenta preta;
Modo de preparação:
  1. Pique a cebola, a malagueta fresca e a salsa finamente. Parta o tomate em cubos. Misture estes ingredientes com o feijão-frade.
  2. Para preparar o molho, misture o azeite com o vinagre e o dente de alho esmagado. 
  3. Envolva a salada no molho e sirva fresco.

Esta receita participa no desafio do quarto aniversário do Blogue da Belinha Gulosa.