quinta-feira, 7 de julho de 2011

Proud Mary

Nem mais tarde, nem mais cedo. Maria despertou à mesma hora de sempre. Há muito que era o corpo o relógio da sua vida. Nunca se tinha enganado. Espreguiçou-se num gesto rápido e contido e saiu da cama como se saltasse para um precipício. Para trás deixou o bafo húmido do marido. Um corpo grande e feio, encharcado em ronco e vinho. Sem acender a luz, mirou-se no minúsculo espelho da casa-de-banho. Os olhos grandes e esbugalhados devolveram-lhe uma imagem que não reconhecia. Quem era aquela mulher velha e cansada? De quem era aquele rosto desbotado? Vermelho, de frio e de sol. Sacudiu o cheiro a naftalina e vestiu-se sem convicção. Camisola  de algodão baço, casaco de malha cor de cereja, saia preta,  avental de  chita. Em minutos estaria no único lugar de que era dona. Dona Maria. Tem pimentos amarelos? Tenho filha, tenho.
  

MINI-TARTES DE PIMENTOS, QUEIJO MANCHEGO E IOGURTE
Tempo de preparação: 25 minutos + 25 minutos cozedura;
Serve: 4-5 mini-tartes;

  • 220 gr farinha;
  • 1 colher de chá de fermento instantâneo seco;
  • 2+ 2+ 2 colheres de sopa de azeite;
  • 1 ovo;
  • 80 ml de água morna;
  • 1 pimento vermelho;
  • 1 pimento verde;
  • 2 pimentos amarelos;
  • 3 dentes de alho;
  • 1 cebola roxa;
  • 100 + 30 gr de queijo manchego;
  • 30 gr de queijo parmesão;
  • 200 gr de iogurte grego;
  • uma mão cheia de óregãos;
  • uma mão cheia de salsa;
  • sal e pimenta preta;
Modo de preparação:

  1. Corte os pimentos e a cebola roxa em tiras. Pique um dente de alho finamente. Leve duas colheres de sopa de azeite ao lume e adicione os pimentos, a cebola e o alho. Deixe refogar, até os pimentos estarem cozinhados. Reserve.
  2. Misture a farinha com uma pitada de sal. Forme uma cova no centro e junte o ovo e duas colheres de azeite. Misture bem.
  3. Entretanto, dissolva o fermento na água morna. Tape por uns minutos, com um pano ou película aderente, até que se formem bolhas à superfície. Adicione à mistura de farinha e sove por 10 minutos, ou até obter uma massa homogénea e ligeiramente elástica.
  4. Forre formas de tarte pequenas (ou uma forma grande de 23 cm) com a massa.
  5. Numa tigela misture o iogurte grego com o queijo ralado e duas colheres de sopa de azeite. Tempere com pimenta preta moída na hora. Como os queijos são fortes, não precisa adicionar sal.
  6. Barre a massa com a mistura de iogurte e disponha os legumes por cima. Polvilhe com oregãos e com um pouco mais de queijo manchego. Leve ao forno cerca de 25 minutos, ou até a massa estar dourada e o queijo derretido. Polvilhe com salsa picada grosseiramente e sirva imediatamente. Pode servir de entrada ou, acompanhado com uma boa salada e um copo de vinho branco, de prato principal.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Isn´t She Lovely


Percorre a clínica na ponta dos saltos. Já todos conhecem os compassos do seu percurso. Primeiro a cafetaria, depois o consultório. Veste bata branca imaculada. De corte moderno, mando-a fazer de propósito a uma costureira muito jeitosa que lhe indicou uma amiga. Não podes andar nessas figuras. Bata larga, desajustada. Mandou fazer cinco. Uma para cada dia de consulta. Trá-la desabotoada, deixando ver o conjuntinho novo que comprou no fim-de-semana. É dificil adivinhar a perfeição daquele corpo mergulhado em consumo. Como se fosse uma calda, uma conserva. Traz tudo. Aneis, brincos, pulseiras e quanta mais tralha houver em casa. Guarda bugigangas numa caixa em pele que o ex-marido lhe deu. Todos os dias olha para o raio da caixa e lembra-se dele. Vou deita-la fora. Mas nunca deita. Tudo ali pendurado, a apimentar o olhar de quem a vê passar. Apressada, indiferente, de bloco de notas na mão. Em surdina, como se fosse pecado, Branca conta a uma enfermeira que agora  não come doces. Que pena que eu tenho da Branca.


TARTE DE PÊSSEGO E FRUTOS SILVESTRES
Tempo de preparação: 25 minutos+ 40 minutos de cozedura;
Serve: 8-10 fatias grandes;

  • 270 gr + 90 gr de farinha;
  • 125 gr+ 45 gr de manteiga;
  • 90 gr + 90 gr de açúcar mascavado claro;
  • 2 ovos;
  • 2 colheres de chá de fermento em pó;
  • 300 gr de pêssego;
  • uma mão cheia de frutos silvestres (framboesas, mirtilos, amoras, groselhas) congelados;
  • 1 colher de sopa de doce de pêssego;
  • 1 colher de sopa de vinho do Porto;
Modo de preparação:
  1. Coloque 270 gr de farinha, 125 gr de manteiga partida em cubos e 90 gr de açúcar num robot de cozinha. Bata até obter migalhas. Adicione um ovo e bata novamente até obter uma massa homogénea. Retire do robot de cozinha e amasse mais um pouco. Forme uma bola e estique a massa com a espessura de cerca de 3mm e forre a base pretendida.
  2. Para fazer uma massa fofa que servirá de recheio, bata a restante manteiga com o açúcar. Assim que estiver bem ligado adicione o ovo e o fermento. Finalmente incorpore delicadamente a farinha.
  3. Deite a massa fofa por cima da base de tarte espalhando até ficar homogéneo. Por cima coloque a fruta, pressionando ligeiramente.
  4. Leve ao forno a 180 Cº cerca de 40-45 minutos, ou até estar firme e tostada. Retire do forno e deixe arrefecer.
  5. Entretanto aqueça o doce de pêssego até ficar liquido e adicione o vinho do Porto. Com a ajuda de um pincel de cozinha, espalhe o doce por cima do recheio da tarte. Sirva.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Cara Valente


Aos dez anos deixou a escola. Aos dezasseis casou-se. Ainda não tinha completado trinta e três anos quando lhe nasceu o primeiro neto. Depressa percebeu que no seu relógio as horas não eram perpétuas e as bocas que pediam comida multiplicavam-se a cada minuto. Sempre que o barco se afastava da terra pensava neles. Nos filhos, nos netos. Não quero que sejam pescadores, disse um dia aos amigos, batendo decidido o às de copas na mesa de pedra. Soltou as amarras e as palavras zarparam-lhe boca fora. Ninguém lhe respondeu.  O Mar podia ouvir. Zangar-se. E as mulheres a trocarem os lenços brancos pelos xailes pretos. E o barco a partir e a anunciar o fim. Gaspar gostava de pensar que o futuro dos seus seria diferente. Sem a pele curtida, sem as aspas desenhadas nos cantos dos olhos, sem o medo de não voltar.

SARDINHAS DE ESCABECHE
Tempo de preparação: 15 minutos, mais ou menos;
Serve: 4-6 pessoas;

  • 8 sardinhas;
  • 1 cenoura;
  • 1 cebola;
  • 2 dentes de alho;
  • 125 ml de vinagre;
  • 125 ml de água;
  • 2 folhas de louro;
  • 1 colher de sopa de polpa de tomate;
  • 1 colher de sopa de Vinho da Madeira;
  • 2 colheres de sopa de azeite + extra para fritar;
  • farinha q.b.;
  • uma mão cheia de salsa;
Modo de preparação:
  1. Tempere as sardinhas com sal. Passe-as por farinha. Leve uma panela com azeite ao lume e disponha as sardinhas, numa só camada, deixando-as alourar de um lado e de outro. Quando estiverem douradas, retire do lume e transfira para um prato de servir.
  2. Entretanto, parta a cebola e a cenoura em rodelas finas e pique os dentes de alho e a salsa finamente.
  3. Leve o azeite ao lume num tacho pequeno. Junte as rodelas de cebola e assim que estiverem moles junte a cenoura. Deixe apurar uns minutos e acrescente o alho e as folhas de louro. Quando começar a cheirar bem adicione a polpa de tomate, o vinagre e o vinho. Deixe ferver cerca de 5 minutos e adicione a água. Deixe o molho ferver até ter consistência.
  4. Retire as folhas de louro e regue as sardinhas com o molho e polvilhe com salsa picada. Sirva quente ou frio.
  5. Se tiver tempo e paciência, em vez de usar as sardinhas inteiras, arranje-as em filetes.....

terça-feira, 21 de junho de 2011

Blackbird


Entrou na sala branca a medo e pousou a cesta de verga no chão. Sentou-se devagarinho na ponta da cadeira já gasta e olhou a toda a volta, como se alguém a pudesse ver. Sentava-se sempre na ponta das cadeiras. Detestava ficar com a pernas bambas, suspensas, na evidência da sua pequenez. Pela nesga da janela que emoldurava a jaula branca entrava um fio de Sol. Até o Verão era tímido naquele lugar. Olhou fixamente para a porta fechada e adivinhou o silencio dos corredores. Um arrepio percorreu-lhe o corpo miúdo. Temeu a hora em que a trariam, de pantufas, poisada numa cadeira de rodas, despenteada, vaga. Tenho tantas saudades tuas, Avó. Olhou para ela com admiração. Gosto tanto de ti, Avó. Tatuou-lhe os lábios no rosto e acariciou-lhe as mãos. Lágrimas invisíveis jorraram-lhe dos olhos negros quando percebeu que a Avó a mirava com espanto. Um olhar perdido no absurdo daquela mulher de casaco vermelho.  E tu quem és? Sou eu Avó, não te lembras? Sou o capuchinho vermelho.



SALADA DE FEIJÃO-FRADE, TOMATE E MALAGUETA
(Adaptada do Livro "Cozinha Para Quem Não Tem Tempo" da Chef Mafalda Pinto Leite)
Tempo de preparação: 10 minutos, ou menos;
Serve: 2-4 pessoas;

  • 400 gr de feijão-frade cozido;
  • 1 malagueta fresca sem sementes;
  • 2 tomates pequenos;
  • 1 cebola roxa;
  • 1 dente de alho;
  • uma mão cheia de salsa;
  • 1 colher de sopa de azeite;
  • 3 colheres de sopa de vinagre de vinho branco;
  • sal e pimenta preta;
Modo de preparação:
  1. Pique a cebola, a malagueta fresca e a salsa finamente. Parta o tomate em cubos. Misture estes ingredientes com o feijão-frade.
  2. Para preparar o molho, misture o azeite com o vinagre e o dente de alho esmagado. 
  3. Envolva a salada no molho e sirva fresco.

Esta receita participa no desafio do quarto aniversário do Blogue da Belinha Gulosa.



terça-feira, 14 de junho de 2011

Romaria

Traz-me sempre um rosário. Já deve ter perdido a conta aos rosários que me ofereceu. Para teres na mesinha de cabeceira. Nesta cama me deitei, sete anjinhos encontrei, três aos pés, quatro à cabeceira, Nossa Senhora à minha beira, que me disse: Filipa, dorme e descansa, não tenhas medo de nada, eu te guardarei. E guarda. Todos estes anos. Sem que nenhuma vez lhe tenha rezado antes de dormir um terço completo. Traz-me sempre medalhinhas. Para guardares contigo na carteira, no porta moedas, filha. Para seres uma boa menina. Numa aflição filha, lembra-te que Nossa Senhora está perto de ti. E o teu Santo Antoninho. E eu lembro-me. E olho para as medalinhas e para o Santo Antoninho e lembro-me mais de ti do que deles, Avó. Lembro-me das tuas aflições, das tuas preces, das tuas romarias. E dou-lhes um beijinho leve, como os que dou no teu rosto riscado quando voltas de uma romaria e me ofereces um rosário de contas de pérola.

CHURROS
( Adapatado do Livro "Sabores e Cozinha, ao encontro de Portugal" de Tessa Kiros)
Tempo de preparação: 10 minutos;
Serve: 6- 8 pessoas;

  • 250 ml de água;
  • 100 gr manteiga;
  • 225 gr farinha sem fermento;
  • 1/2 colher de chá de fermento;
  • 3 colheres de sopa de açúcar;
  • 3 ovos;
  • uma pitada de sal;
  • óleo para fritar;
  • açúcar e canela para polvilhar; 
Modo de preparação:
  1. Leve uma panela ao lume com a água e a manteiga.
  2. Entretanto, misture a farinha, o fermento, o sal e o açúcar numa tigela.
  3. Assim que a manteiga derreter, peneire para a panela a mistura da farinha e mexa com um colher de pau até obter uma bola de massa homogénea e brilhante. Retire do lume.
  4. Com a ajuda de uma batedeira eléctrica, incorpore um a um, os ovos na massa. Coloque a massa num saco de pasteleiro com o bico estrelado.
  5. Coloque uma panela com óleo ao lume, e quando o óleo estiver bem quente, pressione o saco de pasteleiro formando churros com cerca de 10 cm de comprimento, cortando com a ajuda de uma tesoura de cozinha.
  6. Frite de um lado e do outro, cerca de 3 minutos, e sirva polvilhado com açúcar em pó e canela se gostar.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Com um brilhozinho nos olhos

O que eu gostava de ter guardado todos aqueles papelinhos que escrevinhávamos quando éramos miúdas. Todos dobrados em quatro, folhinhas de papel aos quadradinhos, folhinhass de papel às risquinhas , umas sobre as outras, em montinhos ordenados, no fundo de uma caixa velha, atados com fitas de cetim rosa pálido. Nunca te vi de rosa pálido. Era mais cor para mim. Como uma boneca. Como tu gostavas de me dizer. Não és pequena, és boneca.  Nem imaginas como essas palavras me aumentavam.  Boneca. Dizias isso de forma austera. Nem os cantos dos olhos sorriam. Só as mulheres bonitas podem ser austeras com dezasseis anos.  E tu podias. A austeridade ficava-te bem. Aliás como tudo. Até o rosa pálido. E o que eu queria esses papelinhos. Essa juras de amizade eterna. Esses encontros, essas confidências, essa  bebedeira de companheirismo. Essa admiração que tinhas por mim. E eu por ti. Boneca. Esse brilhozinho nos olhos de quem faz uma amiga....

COURGETTE COM CARNE PICADA
Tempo de prepraração: 40 minutos;
Serve: 4 pessoas

  • 2 courgettes grandes;
  • 500 gr carne picada;
  • 1 cebola grande;
  • 3 dentes de alho;
  • 3 colheres de sopa de azeite;
  • 3 colheres de sopa de pão ralado;
  • 1/2 pimento verde;
  • 1/2 pimento laranja;
  • 1/2 pimento vermelho;
  • 1 colher de chá de caril em pó;
  • 1 colher de chá de cominhos moídos;
  • 1 mão cheia de salsa;
  • sumo de um limão;
  • sal e pimenta preta;
  • queijo feta para polvilhar;

Modo de preparação :
  1. Pré-aqueça o forno a 180 Cº.
  2. Pique a cebola e os dentes de alho. Corte os pimentos em cubos pequenos. Reserve.
  3. Entretanto retire as pontas das courgettes e corte-as ao meio no sentido do comprimento. Retire a polpa com uma colher de chá, ou um boleador, deixando cerca de 0,5 cm a toda a volta.
  4. Numa panela com água a ferver e sal, coza as courgettes, cerca de 4 minutos. Retire com uma espumadeira e reserve.
  5. Leve o azeite ao lume e refogue a cebola picada e os dentes de alho. Junte os pimentos. Assim que os legumes amolecerem, junte a carne picada. Deixe refogar cerca de 15 minutos, ou até que a carne liberte toda a água. Adicione o caril, os cominhos, a salsa e o pão ralado. Rectifique os temperos e junte o sumo de limão.
  6. Recheie as courgettes com a carne picada e leve ao forno, cerca de 20 minutos. Esfarele queijo feta em cima da carne e sirva.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Waiting on the World to Change


Já a madrugada ia alta quando Germana deslizou da cama. Não era seu costume. Hoje era um dia especial. Enfiou os pés calejados nos chinelos velhos e dirigiu-se em passinhos de dança para a casa-de-banho. Lavou-se a preceito e até se perfumou um pouco. Um luxo fora do comum. Mas hoje era um dia especial. Dominou os cabelos grisalhos com  a habitual perícia, aconchegou-os com uma rede e cercou-os com negros ganchos no fundo da nuca. Passou pela cozinha e beberricou o leite com cevada morna mergulhando umas bolachinhas Maria com precisão. Voltou a dançar pelo corredor fora e abriu o guarda-fatos com um jeito decidido. Tirou o cavaquinho cinzento e sacudiu-o cruzeta fora. Pegou na mala de Domingo e verificou os seus documentos. Os sapatos engraxados espreitaram debaixo da cama. Devolveu-lhes o sorriso. Hoje era um dia especial.  A vida tinha passado depressa. Sem questões, sem opiniões. Germana, quem lhe teria escolhido o nome? Sempre submissa, estava cansada de esperar que o Mundo mudasse. Secção de voto número 3, eleitor n.º 23456718-B, Germana da Silva. Sou eu.


LULAS COM MOSTARDA E LIMÃO
(Adaptado do Livro "Doze Meses de Cozinha")
Tempo de preparação:20 + 1 h 15 minutos
Serve: 4 pessoas;

  • 750 gr de lulas pequenas;
  • 2 colheres de sopa de manteiga;
  • 2 cebolas médias;
  • 400 gr de tomate pelado;
  • 2 gemas de ovo;
  • 1 colher de sopa de mostarda;
  • 1 colher de sopa de vinho branco;
  • 1/4 de casca de limão;
  • uma mão cheia de salsa;
  • sal e pimenta preta;
Modo de preparação:
  1. Lave as lulas e arranje-as cortando em argolas.
  2. Corte as cebolas em rodelas muito finas e leve-as a amolecer, em lume brando, com a manteiga. Junte o tomate pelado e deixe ferver cerca de 15 minutos. Passe com a varinha mágica e leve de novo ao tacho.
  3. Introduza as lulas no molho preparado e acrescente um pouco de água e a casca de limão. Tape e deixe cozinhar até que as lulas estejam macias.
  4. Rectifique os temperos e retire o tacho do lume. Adicione as gemas levemente batidas, a mostarda e o vinho branco. Polvilhe com a salsa picada e sirva com arroz branco.