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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

I´d Rather Dance With You


Entre os tradicionais jantares de Natal, muitos, sem interesse, sem graça, sem vontade, Teresinha tinha um jantar especial. O jantar das Amigas. Todas as semanas era a mesma coisa. Reuniam-se num badalado restaurante da cidade, escolhiam a mesa a dedo,  bebiam champanhe francês e tinham as mesmas conversas de sempre. Em casa ficavam maridos falhados, fracos, às vezes bêbados às vezes falidos. Mas no Natal esse encontro era ainda mais especial. Esfregavam os corpos com sabonetes de seda, esticavam os cabelos de cortes modernos, pintavam as unhas impecáveis, encharcavam-se em perfumes caríssimos e tenham as mesmas conversas de sempre. Porque carga de água ainda marcavam esses jantares? Ninguém dizia o que queria, nem o que sentia, nem o que pensava. Ninguém tentava convencer da excepcionalidade das suas ideias, da franqueza do seu carácter, da conquista da sua emancipação. Aquela que pretendiam ser uma afirmação do seu apregoado feminismo, ninguém via, ninguém acreditava, ninguém comprava. Maneando as ancas, exibindo as pernas, braços e colos desnudos, Teresinha e as amigas usavam a sua beleza como uma arma torpe para afirmar a sua independência.

RISOTTO DE ABÓBORA
Adaptado do Livro Ingrediente Secreto do Chef Henrique Sá Pessoa
Serve: 2
Tempo de preparação: 30 minutos



  • 300 gr arroz para risotto;
  • 300 gr de abóbora cortada em cubos;
  • 1 litro de caldo de legumes;
  • 60 ml de vinho branbco;
  • 2 chalotas;
  • dente de alho;
  • 50 gr manteiga;
  • 5 colheres de sopa de queijo parmesão ralado + extra para servir;
    5 colheres de sopa de queijo mangecho ralado;
    uma mão cheia de salsa;
  • azeite, sal, pimenta preta;
Modo de preparação:
  1. Leve um fio de azeite ao com metade da ab´pbora em pedaços. Temptere com sal e  pimenta e deixe que a abóbora se desfaça. Junte a manteiga e  triture até obter um puré.
  2. Pique finamente o alho e as chalotas e refogue em azeite, adicione o arroz e, quando estiverem  translúcidos, adicione o vinho branco. 
  3. Entretanto, aqueça o caldo de legumes, e vá adicionando aos poucos o caldo ao arroz até que esteja al dente. Por fim junte a metade cubos de abóbora que reservou, o puré de abóbora e o queijo. Rectifique os temperos.
  4. Polvilhe com salsa  e com mais queijo parmesão se gostar. 

quarta-feira, 27 de julho de 2011

I´ll be blessed


É no terceiro andar do mercado que se reúnem todos os dias. Creio que há gente que não sabe que o mercado tem um terceiro andar. Mas é lá, aconchegadas pelo cheiro húmido daquelas paredes bolorentas que elas se juntam. Todas velhas, todas feias, todas vendedoras à força. Das suas boquinhas finas, riscadas pelo sol, não sai nem um pregão, nem um instante de conversa fiada. É o ramerrame da vida de quem lá sobe que quebra o silêncio das manhãs daquelas mulheres. Enchem as bancas de betão sem vida, seco e gretado, com alguidares de plástico azul, cor-de-rosa, verde. Com a cor que calha. Sujos e desbotados, como os olhos delas. Movem-se à volta dos legumes como se tivessem a roupa encharcada em ruralidade. Estranho que vendam todas o mesmo. Sem azedume, sem picardias, sem olhares gulosos. Abençoadas pelo mesmo Ser. Pergunto por beringelas. Indicam-me quem tem. Consola-me esta solidariedade. E beringelas.

COUSCOUS DE BERINGELA E TOMATE
Serve: 4 pessoas
Tempo de preparação: 10 minutos;

  •  2 beringelas grandes;
  • 250 gr de couscous;
  • 3 colheres de sopa de azeite + extra para envolver;
  • 300 ml de caldo de galinha;
  • 2 tomates chucha;
  • 1 dente de alho;
  • uma mão cheia de folhas de mangericão;
  • 40 gr de queijo feta;
  • flor de sal e pimenta a gosto;
Modo de preparação:
  1. Aqueça azeite numa panela e junte as beringelas em cubos. Tempere com flor de sal e pimenta a gosto. Deixe alourar as beringelas, adicione 1 dente de alho  finamente picado e o couscous. Deixe tostar ligeiramente e vá mexendo com um garfo. 
  2. Junte o caldo de galinha e retire do lume. Tape a panela com película aderente e deixe repousar entre 4 a 5 minutos no vapor.
  3. Entretanto, corte 2 tomates chucha em cubos e reserve.
  4. Corte as folhas de manjericão grosseiramente e reserve.  
  5. Retire o couscous para uma taça de servir, adicione o manjericão e o tomate em cubos e, por cima, esfarele o queijo feta. Acrescente um fio de azeite e envolva tudo. Rectifique os temperos sal e sirva.
  6.  

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Walk


Desci a Rua José Malgueira com passos curtos e desajeitados. Os pés gritavam-me insultos agudos que eu fazia de conta não ouvir. Quando encostei a barriga ao balcão caruchoso da mercearia quase respirei de alivio. Um sorriso malandro e um piropo infantil receberam-me com a simpatia de sempre. O que vai ser, cara linda? Tirar os sapatos e cortar os pés, Sr. Paulino. O raio das sandálias nem me deixavam pensar. Tudo ordenado nas prateleiras de madeira, com os preços escritos a lápis em papelinhos amarelos cortados à mão. Sabão Clarim, Omo Roupa Branca,  Limpa Metais Coração, Sonasol Lava Tudo Amoniacal. Farinha Branca de Neve, Pó Royal, Chocolate Pantagruel. Papel higiénico, Guardanapos de papel às florinhas, Toalhas de mesa de plástico axadrezado. Sabonetes Alfazema, Old Spice e Frutos secos. Temos de tudo, cara linda, é só escolher. Alheiras de Mirandela, queijo da Serra, azeitonas e tremoços.  Um corte de bacalhau, Sr. Paulino. Deixe ficar os pés.


  
MEIA DESFEITA ou SALADA DE BACALHAU
(Adaptada da Revista Blue Cooking nº 41)
Serve: 4 pessoas;
Tempo de preparação: 15 minutos, mais ou menos
  • 2 postas de bacalhau;
  • 200 gr de feijão verde;
  • 400 gr de grão de bico cozido;
  • 1 cebola grande;
  • 1 dente de alho;
  • 3 colheres de sopa de azeite;
  • 1/2 malagueta fresca;
  • 1 Courguette pequena;
  • 1 colher de sopa de colorau;
  • 2 colheres de sopa de salsa picada;
  • sal e pimenta preta q.b;
Modo de preparação:
  1. Coza o bacalhau e o feijão verde. Reserve.
  2. Pique a cebola e o dente de alho finamente. Leve o azeite ao lume e refogue a cebola e até ficar ficar translúcida. Junte o colorau e acrescente o alho e a courgette. Deixe cozinhar lentamente até a courgette estar cozida, mas sem estar mole.
  3. Junte o feijão verde e o grão e envolva bem.
  4. Adicione o bacalhau em lascas.
  5. Pique a malagueta e polvilhe com salsa picada. Rectifique os temperos e sirva. Quente ou fria.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Proud Mary

Nem mais tarde, nem mais cedo. Maria despertou à mesma hora de sempre. Há muito que era o corpo o relógio da sua vida. Nunca se tinha enganado. Espreguiçou-se num gesto rápido e contido e saiu da cama como se saltasse para um precipício. Para trás deixou o bafo húmido do marido. Um corpo grande e feio, encharcado em ronco e vinho. Sem acender a luz, mirou-se no minúsculo espelho da casa-de-banho. Os olhos grandes e esbugalhados devolveram-lhe uma imagem que não reconhecia. Quem era aquela mulher velha e cansada? De quem era aquele rosto desbotado? Vermelho, de frio e de sol. Sacudiu o cheiro a naftalina e vestiu-se sem convicção. Camisola  de algodão baço, casaco de malha cor de cereja, saia preta,  avental de  chita. Em minutos estaria no único lugar de que era dona. Dona Maria. Tem pimentos amarelos? Tenho filha, tenho.
  

MINI-TARTES DE PIMENTOS, QUEIJO MANCHEGO E IOGURTE
Tempo de preparação: 25 minutos + 25 minutos cozedura;
Serve: 4-5 mini-tartes;

  • 220 gr farinha;
  • 1 colher de chá de fermento instantâneo seco;
  • 2+ 2+ 2 colheres de sopa de azeite;
  • 1 ovo;
  • 80 ml de água morna;
  • 1 pimento vermelho;
  • 1 pimento verde;
  • 2 pimentos amarelos;
  • 3 dentes de alho;
  • 1 cebola roxa;
  • 100 + 30 gr de queijo manchego;
  • 30 gr de queijo parmesão;
  • 200 gr de iogurte grego;
  • uma mão cheia de óregãos;
  • uma mão cheia de salsa;
  • sal e pimenta preta;
Modo de preparação:

  1. Corte os pimentos e a cebola roxa em tiras. Pique um dente de alho finamente. Leve duas colheres de sopa de azeite ao lume e adicione os pimentos, a cebola e o alho. Deixe refogar, até os pimentos estarem cozinhados. Reserve.
  2. Misture a farinha com uma pitada de sal. Forme uma cova no centro e junte o ovo e duas colheres de azeite. Misture bem.
  3. Entretanto, dissolva o fermento na água morna. Tape por uns minutos, com um pano ou película aderente, até que se formem bolhas à superfície. Adicione à mistura de farinha e sove por 10 minutos, ou até obter uma massa homogénea e ligeiramente elástica.
  4. Forre formas de tarte pequenas (ou uma forma grande de 23 cm) com a massa.
  5. Numa tigela misture o iogurte grego com o queijo ralado e duas colheres de sopa de azeite. Tempere com pimenta preta moída na hora. Como os queijos são fortes, não precisa adicionar sal.
  6. Barre a massa com a mistura de iogurte e disponha os legumes por cima. Polvilhe com oregãos e com um pouco mais de queijo manchego. Leve ao forno cerca de 25 minutos, ou até a massa estar dourada e o queijo derretido. Polvilhe com salsa picada grosseiramente e sirva imediatamente. Pode servir de entrada ou, acompanhado com uma boa salada e um copo de vinho branco, de prato principal.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Com um brilhozinho nos olhos

O que eu gostava de ter guardado todos aqueles papelinhos que escrevinhávamos quando éramos miúdas. Todos dobrados em quatro, folhinhas de papel aos quadradinhos, folhinhass de papel às risquinhas , umas sobre as outras, em montinhos ordenados, no fundo de uma caixa velha, atados com fitas de cetim rosa pálido. Nunca te vi de rosa pálido. Era mais cor para mim. Como uma boneca. Como tu gostavas de me dizer. Não és pequena, és boneca.  Nem imaginas como essas palavras me aumentavam.  Boneca. Dizias isso de forma austera. Nem os cantos dos olhos sorriam. Só as mulheres bonitas podem ser austeras com dezasseis anos.  E tu podias. A austeridade ficava-te bem. Aliás como tudo. Até o rosa pálido. E o que eu queria esses papelinhos. Essa juras de amizade eterna. Esses encontros, essas confidências, essa  bebedeira de companheirismo. Essa admiração que tinhas por mim. E eu por ti. Boneca. Esse brilhozinho nos olhos de quem faz uma amiga....

COURGETTE COM CARNE PICADA
Tempo de prepraração: 40 minutos;
Serve: 4 pessoas

  • 2 courgettes grandes;
  • 500 gr carne picada;
  • 1 cebola grande;
  • 3 dentes de alho;
  • 3 colheres de sopa de azeite;
  • 3 colheres de sopa de pão ralado;
  • 1/2 pimento verde;
  • 1/2 pimento laranja;
  • 1/2 pimento vermelho;
  • 1 colher de chá de caril em pó;
  • 1 colher de chá de cominhos moídos;
  • 1 mão cheia de salsa;
  • sumo de um limão;
  • sal e pimenta preta;
  • queijo feta para polvilhar;

Modo de preparação :
  1. Pré-aqueça o forno a 180 Cº.
  2. Pique a cebola e os dentes de alho. Corte os pimentos em cubos pequenos. Reserve.
  3. Entretanto retire as pontas das courgettes e corte-as ao meio no sentido do comprimento. Retire a polpa com uma colher de chá, ou um boleador, deixando cerca de 0,5 cm a toda a volta.
  4. Numa panela com água a ferver e sal, coza as courgettes, cerca de 4 minutos. Retire com uma espumadeira e reserve.
  5. Leve o azeite ao lume e refogue a cebola picada e os dentes de alho. Junte os pimentos. Assim que os legumes amolecerem, junte a carne picada. Deixe refogar cerca de 15 minutos, ou até que a carne liberte toda a água. Adicione o caril, os cominhos, a salsa e o pão ralado. Rectifique os temperos e junte o sumo de limão.
  6. Recheie as courgettes com a carne picada e leve ao forno, cerca de 20 minutos. Esfarele queijo feta em cima da carne e sirva.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Cara de anjo mau

Li-o todo até ao fim. O estômago às cambalhotas e eu aqui sentada muito quietinha a ler. No peito um apertão, um nojo solidário. Logo hoje que está sol e é sexta-feira e o fim-de-semana cheira a festim. Estava tão bem quieta. Sem ler. Sem saber. Porque carga de água fui lê-lo? A identidade de género tem destas coisas. Nunca disse nada a ninguém, mas acho que foi por isso que quis ter uma filha. E tive. Obrigada, Meu Deus. Sempre tive medo do dois contra um. De me sentir sozinha, injustiçada, indefesa, incompreendida. Uma mulher comove-se com a dor de outra mulher. Eu comovo-me.  Se calhar foi por isso que fui ler. Estive quase um século a lê-lo.  Um circo inteiro a actuar dentro da tripa. Trapezistas, palhaços, elefantes, leões. E eu de boca fechada, com medo de jorrar um vómito. A imaginar porque carga de água não te comoveste. A imaginar-te vestida de preto, com a beca coçada, com cara de anjo mau.

PENNE COM BERINGELAS
Tempo de preparação: 20 minutos
Serve: 4 pessoas;

  • 2 beringelas grandes;
  • 400 gr de tomate pelado;
  • 450 gr de pene (ou outra massa curta);
  • 2 dentes de alho;
  • 1 malagueta seca;
  • uma mão cheia de azeitonas pretas;
  • uma mão cheia de salsa fresca;
  • 1 salpico de vinagre balsâmico, se gostar;
  • azeite, sal e pimenta preta moída;


Modo de preparação:
  1. Coza a massa até estar al dente. Escorra e reserve uma chávena de água da cozedura.
  2. Entretanto, corte as beringelas em quadrados de 1 cm. Leve uma panela ao lume com um fio de azeite, coloque os alhos esmagados, a malagueta e as beringelas. Quando as beringelas estiverem com cor, junte o tomate pelado partido em cubos com cerca de 1 cm e deixe apurar. 
  3. Junte as azeitonas. Tempere com sal e pimenta. Junte um pouco de água da cozedura se o molho estiver muito grosso. Salpique com o vinagre e junte o molho à massa cozida. Envolva bem. Polvilhe com salsa picada e queijo parmesão e sirva.

terça-feira, 3 de maio de 2011

The girl from Ipanema

Saí de casa cedo e ela já lá estava. De frente para quem passava a olhar para lado nenhum e a sorrir, desavergonhadamente.  Olhei para ela, confesso. Olhei com detalhe, sem pudor. Coitada. Vai ficar ali todo o dia. Pronto já vimos, podes ir à tua vidinha. Gritei-lhe. Gritei para dentro, faço cerimónia deste sentimento. Vai, não ouviste? Está a chover, podes ir que hoje ninguém veste biquínis. Pensei, confesso. Não devia, mas pensei. Nisso e numa série de outros disparates, um tsunami de pensamentos invejosos. E ela ali. Animal de cativeiro. O vidro a cortar-lhe a respiração e ela a sorrir, desavergonhada. As curvas perfeitamente esculpidas, o biquíni cor de oceano Pacífico e as palmeiras. E pior. A promessa. Desavergonhada. Quatro semanas bastam. Uns minutinhos por dia. E eu a escrever com os olhos o nome do tal elixir que as curvas dela me querem vender. Vá lá, não queres? São só uns minutinhos para ficares como eu. Quero, quero. E eu a fingir que acredito, a olhar para mim, para ela, para o elixir, para o espelho, para o biquíni, um terramoto de fantasias. E eu a pensar baixinho que faço cerimónia deste sentimento: desavergonhada!


COUSCOUS DE LEGUMES DE VERÃO
Tempo de prepraração: 15 minutos;
Serve: 4 pessoas;

  • 2 chávenas de couscous;
  • 1 courgette;
  • 1 molho de espargos verdes;
  • 1 pimento vermelho;
  • 1 pimento verde;
  • 2 tomates;
  • 1 malagueta fresca;
  • uma mão cheia de salsa;
  • sumo de uma lima;
  • azeite, sal e pimenta;
Modo de preparação:
  1. Coloque o couscous numa tijela e junte duas chávenas de água a ferver e uma pitada de sal. Tape e deixe repousar cerca de 5 minutos. Separe os grãos com um garfo e reserve.
  2. Entretanto, descasque os espargos e ferva durante 3 minutos.
  3. Parta a courgette, os tomates e os pimentos em quartos.
  4. Leve uma frigideira ao lume com um fio de azeite e junte a courgette e os pimentos. Deixe os legumes amolecerem e ganharem cor. Tempere com sal e pimenta.
  5. Parta os espargos cozidos em rodelas e junte-os ao couscous. De seguida, junte o tomate partido em quartos e os legumes quentes. Polvilhe com salsa picada e mexa bem.
  6. Retire as sementes à malagueta e parta-a em rodelas. Junte aos couscous, tempere com o sumo de lima e sirva.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Window Song


Talvez a fiel recordação que guardo do meu primeiro voo seja apenas uma fantasia que aconchego junto à memória como quem cuida um tesouro. Essa minha primeira vez encheu-me de uma realidade que continuo a procurar, uma e outra vez, sempre que me sento num avião. Um fascínio de contos de fadas que me entra olhos adentro e só me liberta longo já vai o voo. Uma nuvem que é algodão de romaria, uma manta de retalhos verdes que cobre uma estrada, um carro que é uma formiga, um mar que é um espelho, uma mão que me segura. Nunca imaginei ter um irmão piloto. Nunca quis saber como voam as potentes máquinas. Não me interessa o que as move, como levantam, como aterram, se tem hélicesou  motores, se são seguros ou como reagir a emergências. Meu Deus! Estou certa de que morrerei sem perceber nada disso, por mais que teime em explicar-me. Como somos diferentes! E não lhe cobiço a ciência. Não lhe cobiço que vá e que volte. Não lhe cobiço que mande, desmande e comande. Só lhe cobiço a janela. Como eu gosto de desafiar o sentido da Terra, de estar mais perto do Astro-Rei e de me aventurar numa tempestade. Cobiço-lhe que todos os dias possa ver a vida de outra maneira e que continue a brincar aos contos de Guliver como se fosse sempre criança.


RISOTTO DE ESPARGOS VERDES
Tempo de preparação: 25 minutos;
Serve: 4 pessoas;

  • 300 gr arroz para risotto;
  • 4 molhos de espargos verdes;
  • 1 litro de caldo de legumes;
  • 30 ml de espumante;
  • 2 chalotas;
  • 1 dente de alho;
  • 50 gr manteiga;
  • 3 colheres de sopa de queijo parmesão + extra para servir;
  • azeite, sal, pimenta preta;
Modo de preparação:
  1. Descasque os espargos e escalde-os em água a ferver durante 3 minutos. Refresque-os em água fria e gelo. Corte metade em rodelas e reserve as pontas. A restante metade triture até obter um puré.
  2. Pique finamente o alho e as chalotas e refogue em azeite, adicione o arroz e, quando estiverem  translúcidos, adicione o espumante. 
  3. Entretanto, aqueça o caldo de legumes, e vá adicionando aos poucos o caldo ao arroz até que esteja al dente. Por fim junte a manteiga, o queijo e os espargos. Rectifique os temperos.
  4. Sirva com as pontas de espargos a decorar e com mais queijo parmesão se gostar. 

segunda-feira, 21 de março de 2011

30 Seconds to Mars




Não é fácil fazer previsões politicas. Não é fácil hoje, não será diferente amanhã. Uma coisa é certa: chegou o momento da crise. A única. A verdadeira. Aquela porque estávamos todos à espera. Vá lá, confessem. Estávamos todos à espera disto. Mais cedo, ou mais tarde. E agora? Afia-se a língua e cospem-se insultos. Pelo menos está sol. Brilha alto e aquece o corpo. Gosto deste País com sol. Fica mais fácil. Para a crise é igual. Imagino. Com chuva de certo era pior. Agora há que vestir gravata preta. Mesmo que ninguém queira dar condolências. Agora há que sacudir a água do capote, encontrar culpados. O(s) Mercado(s). Esse(s) velho(s) malvado(s). A oposição. O Diabo da Democracia tem destas coisa!. Mas está sol. Valha-nos isso. E nada como uma bela crise para se dizerem tristes verdades. Agudas, sonoras, que ferem os ouvidos. Mas está sol e em Democracia só se ouvem as verdades que votam. Não se ouvem as vozes que gritam ao longe....de Marte. 

PENNE COM PESTO DE PIMENTOS
(Adaptado do Livro "Massas de Eric Treuillé e Anna del Conte)
Tempo de preparação: 10 minutos, mais ou menos.
Serve: 4 pessoas;

  • 1 pimento vermelho;
  • 1 pimento verde;
  • 2 dentes de alho;
  • 5 colheres de sopa pinhões + extra para servir (de preferência torrados)
  • 5 colheres de sopa de azeite virgem extra;
  • 450 gr penne ( ou outra massa tipo tubo ou fita da sua preferência)
  • 1 colher de sopa de orégãos;
  • 1 colher de chá de piri-piri moído;
  • 1/2 colher de chá de vinagre balsâmico;
  • sal e pimenta preta moída na hora;
  • queijo parmesão para servir;
Modo de preparação:
  1. Asse os pimentos sobre uma grelha quente. Retire-lhes a pele e parta-os em pedaços retirando as sementes.
  2. Coloque os pinhões, o alho, os pinhões torrados, o piri-piri, o vinagre e o azeite num robot de cozinha e triture até obter uma mistura cremosa. Reserve.
  3. Entretanto coza a massa al dente, reservando 1 chávena de água da cozedura. Escorra a massa e reserve.
  4. Leve o pesto ao lume na panela ainda quente juntando a água da cozedura da massa conforme necessário e por fim a massa. Polvilhe com orégãos e sirva imediatamente com queijo parmesão ralado na hora.

terça-feira, 15 de março de 2011

Primeira vez


A primeira impressão marca. Dizem. E eu acredito. Sábado comi este strudel pela primeira vez. No fim queria comer mais. Não havia. Queria comer outra vez com o espanto da primeira garfada. Acho que me vai acontecer sempre isto com esta receita. O que significa que vou querer comê-la sempre que a memória me trouxer à ideia este jantar de Sábado à noite de Inverno-que-não-acaba-e-Primavera-que-não-chega. Já me deixei de parvoíces. Agora não tenho receitas predilectas. Tenho receitas. Só. E depois confio na minha memória, que me engana, que não me deixa ser objectiva. Eu também não gosto. Da objectividade. Gosto da primeira impressão. Faz-me sentir infantil. Gosto das garfadas ingénuas à descoberta do sabor novo, de fazer de conta que não sei o que acabei de cozinhar. Gosto da primeira vez.


STRUDEL DE FEIJÃO BRANCO E OUTROS LEGUMES
Tempo de preparação: 15 minutos + 25 minutos;
Serve: 4 pessoas

  • 150 gr de feijão branco cozido;
  • 50 gr de courgette;
  • 50 gr de beringela;
  • 1/2 pimento vermelho;
  • 1/2 pimento amarelo;
  • 1 cebola roxa pequena;
  • 1 colher de sopa de azeite + azeite para pincelar;
  • 1 tomate;
  • 1 ovo;
  • 1+ 1/2 colher de chá de colorau;
  • folhas de massa filo;
  • sal e pimenta preta moída na hora;
Modo de preparação:
  1. Pique finamente a cebola e corte a beringela, a courgette, os pimentos e o tomate em cubos. Aqueça uma colher de azeite e junte a cebola. Adicione os pimentos e salteie por 5 minutos. Adicione a courgette, a beringela, o feijão, o colorau e tempere com sal e pimenta. Deixe cozinhar até os legumes amolecerem, cerca de 10 a 15 minutos. Retire do lume e deixe arrefecer. Entretanto, bata o ovo. Junte o tomate e ovo batido e reserve.
  2. Numa superfície de trabalho limpa estenda uma folha de massa filo e pincele com azeite. Coloque outra folha de massa filo por cima e volte a pincelar com azeite. Repita o processo com a terceira e quarta folhas de massa filo.
  3. Deite a mistura de legumes na parte mais longa da massa e vá enrolando prendendo bem dos lados enquanto enrola. Pincele o topo do strudel com um pouco mais de azeite. Coloque num tabuleiro forrado com papel vegetal e leve ao forno quente por cerca de 25 minutos, ou até estar dourado.
  4. Sirva com uma salada temperada com azeite e uma pitada de colorau....deixe-se levar pelas primeiras impressões.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

With arms wide open



Andam à minha volta, agarram-me as pernas, pedem-me colo. Com a força pequena da gente miúda carregam o banco que lhes foi confiado e espreitam, em jeito de confirmação dos sentidos. Abeiram-se das panelas com a desconfiança que o cuidado lhes impõe e a coragem a que a curiosidade os condena. E perguntam, perguntam sempre, na secreta esperança que a resposta seja aquela que querem ouvir. Mas não é. É sempre outra coisa que não queriam que fosse. Desenham uma casa, um sol, um arco-íris. Pedem-me que desenhe uma árvore, uma laranja, um quintal. Porque não batatas fritas? Porque não. Desenham um barco e um pescador. Porque é peixe, outra vez? Sim, outra vez, muitas vezes, as vezes que for preciso. Uma birra na pergunta, outra birra na resposta. Recebo-os com os braços bem abertos. Dou-lhes um beijinho na testa, a selar o meu compromisso do carinho que todos os dias lhes sirvo à mesa...mesmo que na mesa não esteja aquilo que eles queriam comer!


PESCADA COM MIGAS DE COUVE-FLÔR
(Adaptado do livro "Cozinha Actual, receitas Saudáveis" do Chef Vitor Sobral)
Tempo de preparação: 30 minutos;
Serve: 4 pessoas;

  • 4 postas de pescada;
  • 200 gr de alho francês;
  • 1 cebola;
  • 2 + 1 dentes de alho;
  • 4 + 6 colheres de sopa de azeite;
  • 200 ml de vinho branco;
  • salsa a gosto;
  • 800 gr de brôa;
  • 800 gr de couve-flôr;
  • 1 cebola roxa;
  • sal e pimenta q.b.

Modo de preparação:


  1. Pré aqueça o forno a 200 C.º Retire o miolo à brôa, esfarele em migalhas e reserve.
  2. Corte os dentes de alho, a cebola e o alho-francês. Numa folha de papel de alumínio coloque uma porção de alho, de alho-francês, de cebola e de salsa, sobreponha a posta de pescada, regue com o vinho branco e com uma colher de sopa por cada posta de pescada. Tempere com sal e pimenta e feche a folha de papel de alumínio como se fosse um embrulho. Leve ao forno durante 20 minutos.
  3. Entretanto, com ajuda de uma varinha mágica, triture os dentes de alho com o azeite e reserve.
  4. Arranje a couve-flôr em raminhos e coza em água a ferver com sal, sem deixar que fique cozida demais. Escalde as folhas verdes da couve-flôr e corte-as em tirinhas. Esfarele e reserve.
  5. Num tabuleiro de forno, coloque as migalhas de brôa, a couve-flôr esfarelada, as folhas cortadas em tiras, a cebola roxa cortada em gomos e regue com o azeite de alho. Leve ao forno durante 15 minutos ou até as migas ficarem estaladiças.
  6. Sirva peixe...outra vez! 

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

No Line on the Horizon


Não é novidade que a teoria da separação dos poderes está a cair por terra, pelo menos em Portugal. Acho que até o próprio Montesquieu concordaria sem dificuldade com esta afirmação. E é fácil perceber porquê.  Basta olhar de relance para os títulos da imprensa que se atropelam amontoados na banca dos jornais. Com esta é que o Ilustre francês não contava. Nem ele, nem eu. O poder da comunicação social. Já ninguém quer ler ou ouvir, falar ou escrever sobre eleições, Presidente ou candidatos, subvenções ou campanhas. O tema hoje é outro. É aquele que a comunicação social quis que fosse. Despertou o País com um malabarismo mediático e deu voz a quem há muito já devia ter calado. Que os portugueses não confiavam nos Tribunais, na Justiça, nos Juízes, nos Magistrados do Ministério Público e nos Advogados, eu até já sabia. Mas que os portugueses em vez do sistema judicial, do Direito e do Processo, preferiam a comunicação social como instrumento de Justiça num Estado de Direito, com essa é que eu não contava. Nem eu, nem Montesquieu, que se visse o circo montado por este novo poder ficava, certamente, com cara de batata!


GNOCCHI DE ABÓBORA COM MOLHO DE TOMATE
Tempo de preparação:
Serve: 4 a 6 pessoas;

  • 700 gr de abóbora;
  • 600 gr de batata;
  • 400 gr de farinha + alguma extra se for necessário;
  • 2 gemas;
  • 2 colheres de sopa de manteiga;
  • uma mão cheia de salsa;
  • uma mão cheia de orégãos e tomilho;
  • 800 gr de tomate em pedaços;
  • 150 ml vinho tinto;
  • 1 cebola;
  • 2 colheres de sopa de azeite;
  • 1+2 dentes de alho;
  • sal e pimenta preta q.b.;
  • queijo parmesão q.b.;
Modo de preparação:
  1. Descasque a abóbora e as batatas e parta em cubos. Pique finamente um dente de alho. Leve a manteiga ao ao lume médio numa panela de fundo espesso, adicione o alho, a abóbora e a batata e deixe cozer. (não é necessário acrescentar água pois a abóbora liberta água suficiente para a batata cozer). Quando os legumes estiverem cozidos e a água evaporar, junte uma colher de sopa de salsa picada finamente e uma colher de sopa de orégãos e tomilho. Retire do lume.
  2. Junte as gemas e envolva e por fim junte a farinha. Vá envolvendo até obter uma massa leve. Se estiver pegajoso ( o que depende da água que os legumes libertam e do tamanho dos ovos, acho eu) junte um pouco mais de farinha até obter a consistência desejada.
  3. Enrole a massa em tiras compridas e corte os gnocchi em tiras, fazendo incisões com um garfo.
  4. Entretanto, leve uma panela ao lume com azeite, a cebola  e os restantes dentes de alho finamente picados. Assim que começar a cheirar bem, junte o tomate em pedaços e o vinho tinto. Tempere com sal e pimenta e deixe apurar.
  5. Finalmente, coza os gnocchi numa panela com água e sal a ferver, durante cerca de 2 a 3 minutos.
  6. Sirva com o molho de tomate, polvilhe com salsa e queijo parmesão e divirta-se, porque o circo está montado!

Nota: Este prato também funciona bem com algumas substituições: em vez da salsa também pode usar folhas de manjericão, se gostar; pode substituir o molho de tomate por um molho básico de natas e queijo, mais calórico, mas delicioso!

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Riders on the storm

Estive aqui sentada mais de uma hora. A intermitência cínica do tracinho negro gritava-me do outro lado da tela branca, a provocar o meu orgulho ferido. Hoje, não sei sobre o que escrever. Num gesto mudo levantei-me e vim espreitar  à janela, distrair a minha estupidez. Continua a chover. Mais um dia de Inverno pontuado por pingos finos de chuva triste - chuva que não cala nem ouve. Um dia feio, de chuva vulgar e desinteressante, que não serve de cenário a filme, nem de tema a livro. Pinga. Pinga chuva fina que desbota a realidade de quem olha e molha a vida de quem passa. Uma espécie de parente distante e chato que chegou sem avisar. Na mala trouxe  uma muda de roupa, instalou-se e quer ficar. E aqui estou. Pateta, imóvel, a olhar para esta chuvinha fina e à espera que o Inverno passe.

GRELOS COM AMÊNDOAS
Tempo de preparação: 15 minutos;
Serve: 4 pessoas;

  • um molho de grelos;
  • uma mão cheia de amêndoas lâminadas;
  • azeite q.b;
  • sal e pimenta moída;

Modo de preparação:
  1. Arranje e coza os grelos em água com sal. Assim que estiverem cozidos, escorra, esprema e corte os grelos.
  2. Leve uma frigideira ao lume com o azeite e junte as amêndoas. Assim que estas estiverem douradas junte os grelos e salteie. Sirva a acompanhar os seus pratos de Inverno preferidos, em dias de chuva....ou de sol! 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Cosmic Girl

Este fim-de-semana senti que era de outra galáxia. Não daquelas galáxias avançadas cheias de luzinhas, em que seres gigantes falam educadamente e por telepatia. Não daquelas galáxias imaginárias em que tudo avança à velocidade da luz. Não, não. Nada disso. Senti-me noutra galáxia, mas das reais; daquelas em que seres humanos deixam a educação nos provadores; daquelas galáxias reais em que tudo avança à velocidade de caracol; daquelas galáxias em que os saldos são doença e comprar é  cura. Uma galáxia em que já ninguém fala de crise, fala de estilo. Não me interpretem mal. Eu não tenho nada contra o consumo. Honestamente, eu adoro compras. Mas, não é pelo facto de gostarmos de fazer compras que temos que comprar tudo o que está à nossa frente como se não houvesse amanhã, ou é? Sinceramente, eu gosto de saldos. Gosto de ver os preços em maiúsculas. Gosto de ver os artigos ordenados por peças. Gosto da  sensação arquitectada de bom negócio. Gosto disso tudo. Fossem os saldos só isso, Meus Deus! Mas não são. São filas intermináveis, são histeria colectiva, são consumismo desmedido. Talvez sofra do síndrome da princesa-e-a-ervilha e haja nos saldos algo que me deixa desconfortável, mesmo sem eu saber bem o quê!


CREME DE ERVILHAS E QUEIJO CREME
(Inspirado no Livro Doze Meses na Cozinha)
Tempo de preparação: 20 minutos;
Serve: 4 pessoas;

  • 500 gr ervilhas congeladas;
  • 1 cebola média;
  • 1 alho-francês;
  • 1 fatia de presunto;
  • 3 colheres de sopa de queijo creme (tipo Philadelphia)
  • 1 colher de sopa de farinha;
  • 2 colheres de sopa de azeite;
  • 30 gr manteiga;
  • 750 ml de caldo de galinha;
  • sal e pimenta preta q.b.;
Modo de preparação:

  1. Leve uma panela ao lume com o azeite e a manteiga e deixe derreter. Entretanto, parta a cebola e o alho-francês em rodelas e coloque na panela. Junte a fatia de presunto. Assim que os legumes estiverem amolecidos adicione as ervilhas. Deixe apurar um pouco. Polvilhe com a farinha e regue com o caldo. Deixe ferver.
  2. Retire a fatia de presunto e transfira para um robot de cozinha. Acrescente o queijo e bata até obter um puré cremoso. (se usar a varinha mágica, passe o creme por um coador fino depois de bater para retirar as peles das ervilhas). Rectifique os temperos e sirva.
Nota: Eu gosto deste creme como prato principal acompanhado com tostas de pão rústico barradas com queijo e salada de tomate cereja temperado com pimenta, azeite e salsa.